Com frota antiga, pouca climatização e longas esperas, usuários convivem diariamente com superlotação, desconforto e atrasos enquanto a licitação do transporte completa 14 anos sem solução.
Com 473 ônibus, idade média de 7,6 anos e apenas 3% elétricos e 18% com ar-condicionado, a frota da Grande Aracaju escancara a precariedade do transporte coletivo. A prefeitura promete renovação e tecnologia, os empresários reclamam de prejuízos e os usuários seguem enfrentando superlotação, desconforto e longas esperas.

O sistema atende diariamente 140 mil pessoas de forma ineficiente. Os ônibus são quentes, sujos, mal iluminados, descumprem horários e a licitação do serviço se arrasta há 14 anos.
“Melhorou muito nos últimos meses”, afirmam usuários — mas cada um deles merece mais.
Segundo a SMTT de Aracaju, que gerencia o sistema da capital e da Região Metropolitana
(Socorro, Barra dos Coqueiros e São Cristóvão), haverá avanços. “Até o final do mandato da prefeita, 30% da frota será elétrica e 100% terá até cinco anos de uso e ar-condicionado”, garante o superintendente Nelson Felipe.
Atualmente, a frota soma 473 veículos: 18% possuem ar-condicionado (83), 3% são elétricos (15) e apenas 5% (27) foram adquiridos novos em 2025. Os demais têm idade média de 7,6 anos, segundo o Setransp. “Ainda há ônibus com mais de 12 anos”, admite Felipe. “Os mais antigos pertencem às empresas Modelo e VRS”, acrescenta a superintendente Raíssa Cruz.
A idade média acima do ideal não é exclusividade de Aracaju. Desde 2011, segundo a NTU, os ônibus que circulam no Brasil têm idade superior a seis anos.
“A renovação da frota depende de financiamentos acessíveis. O excesso de gratuidades e a
falta de subsídios não favorecem à aquisição de veículos novos”, diz Raíssa. Segundo ela, 19% dos passageiros não pagam a tarifa de R$ 4,50 e apenas 30% das gratuidades têm fonte de custeio.
Experiência imersiva
Durante uma semana, deixei o carro na garagem e me desloquei apenas de ônibus. Passei
pelos oito terminais de integração — Centro, Mercados, Maracaju, DIA, Atalaia, Zona Oeste,
São Cristóvão e Marcos Freire — e conversei com dezenas de usuários.
No primeiro dia conheci José Augusto e Dalva de Farias Andrade, ambos com 80 anos. O casal aguardava o ônibus para voltar para casa, na Barra dos Coqueiros. Eram pouco mais das 18 horas e o terminal do Centro estava escuro e lotado. Quando a linha 021 chegou, uma multidão se aglomerou na porta traseira. Apelei ao motorista para permitir o acesso do casal pela dianteira, sem sucesso. Eles esperaram a massa entrar e subiram os degraus — altos e tortuosos para idosos. O ônibus partiu lotado e o casal seguiu em pé.
Os assentos sinalizados para idosos, gestantes e pessoas com deficiência raramente são
respeitados.
Acessibilidade
No terminal de São Cristóvão, próximo à UFS, conheci Vitória Nascimento, 23 anos, estudante de enfermagem. Cadeirante, ela depende de ônibus adaptados com elevadores.
Vitória mora no bairro Coroa do Meio e precisa de dois ônibus para ir à universidade e dois
para voltar. Embora o Setransp afirme que toda a frota é adaptada, a jovem relata que nem
todos os elevadores estão em operação, o que aumenta seu tempo de espera.
Perda de tempo
Para o advogado Andrey de Araújo, o tempo de espera ultrapassa o razoável e pode gerar
ações com base no Código de Defesa do Consumidor. “O problema central está na
irregularidade da outorga. É inaceitável o sistema operar sem licitação. Ganha o empresário,que atua com baixa competitividade, e perde a coletividade.”
José Firmo, especialista em gestão urbana, reforça: “Falta zelo com os editais e vontade
política para licitar o serviço e encerrar um imbróglio de 14 anos.”
Viagem insuportável
Marli, consultora de vendas, é usuária da linha 061, sempre lotada nos horários de pico. A
superlotação, o desconforto dos veículos e o trânsito congestionado tornam a volta para casa insuportável.
Acompanhei Marli em seu retorno para Socorro. O ônibus estava cheio, pouco iluminado e
com assentos desgastados. Os engarrafamentos dobraram o tempo de percurso: mais de uma hora de viagem.
Um passageiro trouxe uma caixa de som em volume alto. Ninguém reclamou. “A gente tem
medo, vai que é doido”, lamentou Marli.
O carro como vilão
Pouco mais de 350 mil carros circulam pela Grande Aracaju, segundo o Detran/SE. É a maior frota proporcional à população de 981.400 habitantes, conforme estudo da USP e IBGE.
“O automóvel é o grande vilão. Tem baixa capacidade de transporte e alta demanda por
espaço, provocando congestionamentos e poluição”, afirma o arquiteto César Henrique
Mattos. Ele lembra que o ônibus ocupa 34 vezes menos espaço e transporta quase vinte vezes mais pessoas.
Plano de mobilidade
Matos evita usar o carro, mas admite que o sol forte, a baixa arborização e o desrespeito ao
pedestre às vezes o desanimam. Para ele, a melhoria da mobilidade urbana passa pela
readequação dos modais e pela criação de novos.
“Aracaju precisa de um plano atraente para investidores e motoristas, mas que seja bom para a população. Não é saudável ter tantos carros nas ruas”, complementa o arquiteto Flamínio Fichmann. Consultor de trânsito em São Paulo, Fichmann defende o BRT como compatível com a geografia da cidade.
Em 2015, o então prefeito João Alves entregou o Plano Diretor de Mobilidade Urbana, que
previa corredores e BRT. Ele perdeu a eleição para Edvaldo Nogueira que redimensionou
projeto sem transporte rápido e com corredores de ônibus estreitos. “É um risco para
passageiros que descem nessas paradas”, critica Matos.
A vendedora Maya Santos afirma que já passou por esse risco. “Semana passada, por pouco não fui atropelada por um carro que passou direto pela faixa de pedestre”, relatou a jovem enquanto esperávamos por um ônibus debaixo do sol das 14h, num abrigo próximo ao Shopping Jardins.
De acordo com Nelson Felipe, a prefeitura contratou a Fipe/USP para elaborar estudo que
embasará um novo plano. “Até o final do ano será entregue”, informou. Ele adiantou que será formalizada parceria com a JET — empresa que trouxe bicicletas e patinetes elétricos para Aracaju — para ampliar ciclovias.
“Estou indo a Curitiba conhecer o BDU, Bonde Digital Urbano, movido por indução magnética. Até o fim do ano, traremos 26 ônibus refrigerados e interligaremos ciclovias”, afirmou.
A agente escolar Daniela de Jesus sonha com viagens tranquilas e confortáveis. Ela me
confidenciou isso enquanto dividíamos o mesmo ônibus, a caminho do trabalho. De segunda a sexta-feira, Daniela sai de casa, no bairro Santos Dumont, às 5h30, depois de preparar o almoço e deixar tudo pronto para o filho Miguel ir ao colégio. Precisa pegar dois ônibus para chegar antes das 7h à Farolândia.
“Seria bom se tivéssemos ônibus seguros e confortáveis. Muitas vezes volto para casa em pé no ônibus”, relatou Daniela.
Planos em prática
No último dia da imersão, saí do terminal Atalaia às 19h, desci no terminal do DIA 15 minutos depois e, em seguida, já estava no ônibus que me levaria para casa. Mas interrompi a viagem antes do destino.
O veículo da VRS tinha assentos e barras encardidos, iluminação deficiente e barulho excessivo do motor e dos vidros nas esquadrias. Desci e segui a pé pela avenida, refletindo sobre o sofrimento diário dos milhares de usuários.
Lembrei de Michelle Felix e seu primo, João Gonzaga, do povoado Robalo, na Zona de
Expansão de Aracaju. Duas vezes por semana, eles caminham até a rodovia e aguardam,
muitas vezes por mais de uma hora, o ônibus que os leva ao posto de saúde e ao CAPS. João, de 44 anos, sofre com dores na coluna e distúrbios mentais.
Recordei dona Dalva e o marido — tão idosos e reféns de um sistema precário. Lembrei da
resiliente Vitória, das trabalhadoras de tripla jornada, Marli e Daniela, e de tantos outros que
conheci nessa semana imersiva.
Todos compartilham a mesma urgência: precisam de um transporte público eficiente e de um plano de mobilidade que saia do papel. Não pedem favores; exigem o mínimo — um sistema que funcione e ônibus menos cheios e de qualidade.
Fonte: Fan F1








