Fim do medo, da preocupação constante, do constrangimento, da espera. Foram cerca de três décadas de reuniões, diálogos, reivindicações, cobranças e por muitas vezes frustração por não ver avanços. Mas o tempo não foi fator desmotivante para os representantes das chamadas ‘lotações’ , que representam o transporte complementar da Zona Sul em Aracaju.
A saída da clandestinidade sempre foi algo almejado pelos cooperados. A regularização, garante mais segurança jurídica aos motoristas e traz mais respeito e respaldo à categoria para poder realizar o seu trabalho.
Após uma série de encontros e reuniões com a nova gestão da prefeitura de Aracaju, os entraves foram derrubados e a conquista foi alcançada. No último dia 8 de outubro, a prefeita Emília Corrêa sancionou a Lei 6.205/2025, que regulamenta o Serviço de Transporte Complementar Urbano na Zona Sul da capital.
Na prática, a nova legislação define que o transporte complementar passa a funcionar sob regime de autorização, após chamamento público ou credenciamento, como alternativa ao transporte coletivo, sendo a Superintendência Municipal de Transportes e Trânsito (SMTT) responsável pela fiscalização e gestão da atividade. Com a lei, o órgão passa a exigir padrões de regularidade, segurança, higiene e eficiência do serviço.
Mas para além da regulamentação, a sanção é ainda maia simbólica, especialmente para os cooperados. Além de terem o seu objetivo conquistado, sabem que agora tem uma lei que os protege e definem as diretrizes para o seu trabalho, um avanço para motoristas e passageiros que utilizam o serviço.

Alívio e orgulho
As cooperativas reúnem centenas de motoristas que tiram o seu sustento a partir das corridas diárias que fazem pela Zona Sul de Aracaju. Uma jornada de muitos quilômetros e muitas horas, mas feita com muito orgulho e dedicação há muito tempo.
Entre esses motoristas está o senhor Carisvaldo Santos, conhecido como Cari, que há 22 anos trabalha com táxi-lotação. Ele foi pioneiro na cooperativa que opera na linha para o Augusto Franco – Atalaia – Santa Tereza , e agora tem circulado para o bairro Santa Maria. Depois de duas décadas atuando, não esconde que para ele o que mais importa é a saída da clandestinidade.
O trabalho das lotações surge como uma necessidade de preencher lacunas deixadas pelo transporte público coletivo. O serviço tem grande adesão popular, e diante da demanda, Cari sabe a importância do seu trabalho. Ele compreende que a regularização pode melhorar ainda mais a qualidade do transporte complementar.
“Nesse tempo que eu venho lutando, nunca tive outra função, não recebo ajuda de governo, de nada, de algum grupo. A minha sustentabilidade sempre foi dessa lotação. Me sinto orgulhoso de prestar serviço para o povo, fico muito alegre de prestar serviço com qualidade para o povo e pretendo continuar prestando esse serviço e me sinto muito feliz de transportar o pessoal que quer ir com a gente”, expressa.
A saída da clandestinidade representa, para Cari, uma questão de respeito ao trabalho praticado pelas cooperativas.
“A confiança do povo é muito grande, a vontade do povo é muito grande de usar o nosso serviço, de andar conosco. Nós temos aí, sendo todo dia, nós não tem uma fama que não tem que houve nada, que acontecesse algo que pudesse prejudicar nosso passageiro. Então é só alegria. Ganha a gente, ganha o passageiro. Ninguém na vida, enquanto carneque nós somos, ninguém é correto. Trabalhamos para fazer sempre o melhor, porque o correto é Deus e o certo é Deus. Esse sim, mas nós trabalhamos para dar o melhor.”
E ele acredita na evolução do serviço e no ganho de passageiros com a regulamentação. “Quando a gente não fazia a linha porque não era adequado, vamos passa a fazer e o povo, por sua divulgação, por ter ‘um luminário’ em cima do nosso carro, por ter uma faixa…quem não pega o nosso carro, vai passar a pegar, vai passar confiança, porque o que hoje necessita, o que importa hoje é eu confiar em você e você confiar em mim”, compreende.
Para quem estava à frente das negociações, o sentimento é de dever cumprido. O presidente da Cooperativa de Transporte Alternativo do bairro Santa Maria (Cooptasmar), Francisco Correia, foi um dos representantes das quatro cooperativas que atendem a Zona Sul de Aracaju. Ele celebrou a conquista da categoria e os avanços para um trabalho mais digno, sem discrminação.

“Realmente foi uma briga muito grande, 32 anos brigando contra o sistema, contra várias gestões que passaram, que prometeram e não cumpriram. E hoje, graças a Deus, foi um sonho realizado, um sonho de 289 pais e famílias que transportam o pessoal da Zona Sul, a população da Zona Sul, que sempre deu sustentabilidade. E hoje o que muda é a paz, a tranquilidade, sempre perseguição, aquele medo de perseguição já acabou”.
Só na Cooptasmar, representada por Francisco, são 101 cooperados que realizam entre 8 a 10 viagens diariamente para o Santa Maria, transportando em média cerca de 1000 passageiros. Assim o serviço se torna imprescindível para o deslocamento dos moradores dos bairros, como uma alternativa viável aos déficits do transporte coletivo.
“O transporte complementar foi gerado pela deficiência do poder público em atender com o transporte público. Se você olhar as localidades que são atendidas pelo transporte complementar, são as localidades onde havia a maior deficiência do transporte. Veja, Mosqueiro, Coroa do Meio, Santa Lúcia, Santa Maria, onde havia aquela dificuldade do transporte público entrar, foi sendo gerado, pelo dia a dia, essa possibilidade”, comentou o Superintendente Municipal de Transportes e Trânsito de Aracaju, Nelson Felipe.

Ele reforça que a regulamentação do serviço acontece em virtude do impacto positivo gerado na população da capital. “O que aconteceu com o transporte complementar foi o costume. O costume levou a legalização. Hoje nós temos diversos pais de família que sobrevivem disso. E como é que você faz se você não legalizar algo que já vem sendo utilizado? Então, se você não tira dessa legalidade, coloca na ilegalidade, você provoca uma situação econômica e social muito perigosa”, explicou.
Após a sanção da lei, a SMTT será responsável, a partir desta regulamentação, por fiscalizar o serviço das cooperativas da Zona Sul.
“O transporte complementar, ele vai atender praticamente a mesma linha do táxi. Vistorias, licenças, cursos de capacitação, veículos padronizados, tudo aquilo que tem no regulamento do táxi, e salvo algumas exceções, vão ser também colocados para o transporte complementar”, pontuou Nelson.
O desafio agora é outro
Apesar dos avanços, os diálogos entre os cooperados e o poder público não se encerram mediante a sansão do PL. A lei que regulamenta o transporte complementar da Zona Sul na capital foi um avanço para a categoria, mas agora há novos desafios a serem enfrentados.

Com a sanção da Lei 6.205/2025, os motoristas terão que se adequar a uma série de exigências nos veículos, como vistoria, tempo de serviço no máximo de dez anos (carros a partir de 2016), padrões de rodagem, critérios de higiene, segurança, entre outras atribuições. Diante das exigências, a categoria vai lutar por um subsídio, visto que grande parte dos motoristas precisará arcar com os custos das adequações, ou até mesmo realizar a troca de veículos, o que não é viável para a maioria deles.
“Hoje a maior dificuldade é os veículos, porque como temos uma história, muitas partes de família perderam o carro, muitas partes de família estão sem condições de comprar carro.São 32 anos de luta, 32 anos de sofrimento, muitos que estão operados sem carros hoje, dependendo de uma ajuda do poder público, certo? Que através dos vereadores, da prefeita, dos presidentes das sociedades cooperativas, tentar trazer um subsídio pra essa categoria tão sofrida, porque hoje está muito difícil comprar um carro, para manter na lei”, disse Francisco, da Coopstamar.
Representante da gestão, Nelson Felipe disse que a prefeitura de Aracaju pode oferecer linhas de financiamento capazes de auxiliar os motoristas na efetiva troca do veículo.
“O incentivo maior que elas pedem é aquele incentivo da troca do veículo, mas isso aí não depende da prefeitura, porque as isenções fiscais elas são do Estado e da União, que é o ICMS e o ITI. Então a prefeitura não tem como intervir isso daí, o que a gente está tentando para eles é uma linha de financiamento melhor, mais acessível para que eles possam então trocar os seus veículos. “
Por sua vez, o vice-líder da situação na Câmara de Vereadores de Aracaju, o vereador Lúcio Flávio (PL) que acompanhou na casa legislativa as discussões sobre o projeto enviado pelo executivo, negou a possibilidade a curto prazo de um subsídio para o transporte complementar.
Fonte: Fan F1








