Pouco conhecida pela maioria dos brasileiros, uma das maiores tragédias da Segunda Guerra Mundial ocorreu bem perto de casa, nas águas do litoral de Sergipe e da Bahia. Em agosto de 1942, submarinos alemães torpedearam navios brasileiros, provocando a morte de mais de 600 pessoas, entre civis, mulheres e crianças.
O episódio, que permanece pouco explorado na memória nacional, ganha agora nova dimensão com o longa-metragem “Corações Naufragados”, produzido em Sergipe, que une história, romance e cinema.
Inspirado em fatos reais, o filme nasce de uma ligação pessoal da roteirista Cacilda de Jesus, que concedeu entrevista exclusiva ao Portal Fan F1, detalhando as origens do projeto e os acontecimentos históricos que serviram de base para o roteiro. Historiadora e professora, ela cresceu ouvindo os relatos da avó, dona Emelentina, pescadora da região do Mangue Seco (BA), que presenciou os torpedeamentos e participou do resgate de náufragos.
“Minha avó sempre dizia que tinha salvo o presidente do Brasil. Mais tarde, descobrimos que era um capitão com o sobrenome Castelo Branco. Ela morreu acreditando nisso, e essa memória sempre ficou comigo”, relembra Cacilda.
Essa herança afetiva se transformou no ponto de partida para uma longa e cuidadosa pesquisa histórica, que anos depois resultou, primeiro, em um documentário e, agora, em um filme.
Da pesquisa histórica ao cinema
Antes de se tornar um longa-metragem, Corações Naufragados percorreu diferentes formatos. A ideia inicial era a produção de um livro histórico-romanceado, que acabou não sendo concluído, seguida pelo documentário “Memórias de um Agosto Sangrento”, que reuniu depoimentos de pessoas que viveram ou ouviram relatos diretos sobre os ataques.
Segundo Cacilda, o documentário foi fundamental para a consolidação da pesquisa que sustenta o filme.
“O documentário ajudou muito na pesquisa. A gente conheceu os locais, os detalhes do fato e ouviu memórias que hoje já não existem mais, porque muitas dessas pessoas faleceram”, disse ela.
A adaptação para o cinema trouxe novos desafios, especialmente na construção do roteiro, que exigiu a transposição da linguagem acadêmica e literária para uma narrativa visual.
“No começo eu escrevia de forma muito literária. O diretor olhava e dizia: ‘como eu vou colocar isso em cena?’”, conta a roteirista.
Uma história de amor em meio à guerra
Apesar do contexto histórico marcado pela violência da guerra, Corações Naufragados não segue o modelo tradicional de filmes bélicos. A proposta, segundo Cacilda, é uma narrativa sensível, centrada nas relações humanas.
“Não é um filme sobre guerra. É uma história de amor em tempo de guerra”, define ela.
“O enredo acompanha Francisco, um marinheiro sergipano a serviço da Marinha, e seu romance proibido com uma jornalista. O casal embarca no navio Baependi, que acaba sendo torpedeado próximo à costa sergipana. A partir desse episódio, o filme mescla ficção e realidade para retratar a tragédia, o sofrimento dos sobreviventes e os impactos nas comunidades locais”, conta a roteirista.
Direção sensível e foco no drama humano
A direção é assinada por Caco Souza, que também comandou o documentário. Segundo ele, a escolha estética do filme prioriza a emoção e a reflexão, deixando de lado o espetáculo visual típico dos filmes de guerra.
“Não estamos fazendo um filme pirotécnico. É um filme para as pessoas pensarem e se reconhecerem nessa história”, explica.
Mesmo com o uso pontual de efeitos visuais para recriar navios e cenas marítimas, o foco permanece nas atuações e no drama humano. O elenco reúne nomes do cinema nacional, como Daniel de Oliveira e Olívia Torres, além de atores sergipanos, reforçando a identidade regional da produção.
Sergipe como cenário e personagem
Gravado integralmente em Sergipe, Corações Naufragados utiliza locações que valorizam o patrimônio histórico e natural do estado, como o Centro Histórico de Aracaju, Palácio Olímpio Campos, Porto de Sergipe, São Cristóvão e Praia do Saco.
“Onde você vira a câmera, o cenário é bonito. A Praia do Saco, por exemplo, é cinematográfica”, destaca o diretor.
Além do valor estético, as locações contribuíram para a redução de custos e conferiram autenticidade à ambientação da década de 1940, além de abrirem possibilidades para o fortalecimento do turismo histórico e cultural em Sergipe.
Memória, identidade e reflexão
Mais do que uma obra cinematográfica, Corações Naufragados se propõe a resgatar um episódio ainda pouco conhecido da história brasileira. Os ataques de 1942 foram determinantes para a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial, mas permanecem pouco explorados no imaginário coletivo.
“Qualquer lugar do mundo que tivesse uma história dessas já teria museu, roteiro turístico, material educativo. Sergipe ainda está começando a se apropriar dessa memória”, avalia Cacilda.
O filme também estabelece um diálogo com o presente ao reforçar uma mensagem clara contra a guerra.
“A guerra não leva ninguém a lugar nenhum. Quem mais sofre são os civis, as crianças e as mulheres”, reforça.
Lançamento e próximos passos
Atualmente em fase de montagem e edição, Corações Naufragados deve ser finalizado entre agosto e setembro, com estreia inicial prevista em festivais nacionais e internacionais. O lançamento comercial nos cinemas está previsto para o primeiro semestre de 2027, a depender da definição de uma distribuidora.
Enquanto isso, a produção segue em busca de parcerias e patrocínios para ampliar a divulgação e garantir que a história alcance o maior público possível.
“Não queremos um filme para ficar engavetado. Queremos que essa história seja vista, discutida e lembrada”, conclui Cacilda.
Fonte: Fan F1









