34 segundos restantes, 97 a 97 no placar. O Phoenix Suns, com Collin Gillespie, tenta invadir o garrafão do Golden State Warriors, mas é bloqueado por Al Horford, que logo passa a bola para Gui Santos. O brasileiro corre toda a quadra, supera a marcação de Royce O’Neale e acerta a cesta que garantiu a vitória do GSW na sexta-feira.
Três dias depois, com apenas 24 segundos no cronômetro, os Warriors perdiam por 113 a 112 para o Memphis Grizzlies. Al Horford, embaixo da cesta, é cercado por três marcadores, mas novamente encontra Gui Santos, que finta o adversário e vira a partida para GSW, garantindo mais uma vitória para os californianos.
Os últimos dias foram mágicos para Gui Santos. O ala dos Warriors está em sua melhor fase desde que chegou à NBA, em 2023.
Nos últimos sete jogos, Gui teve médias de 15 pontos, 43% de aproveitamento nos chutes de três, 5,1 rebotes, 3,1 assistências e 1,2 roubo de bola com três vitórias e quatro derrotas para os Warriors, mesmo sem Jimmy Butler III, fora da temporada, e Stephen Curry sendo desfalque em vários das partidas por uma lesão no joelho.
O brasileiro nunca tinha conseguido uma sequência de três jogos com dez ou mais pontos na NBA. E já está com sete.
Mais do que isso, o tempo de quadra também é o maior desde que vestiu a camisa dos Warriors, bem como a importância em quadra. Mas o que mudou para Gui se tornar um dos principais rostos do time em 2026?
Espaço no elenco
Os Warriors têm sofrido com muitos desfalques ao longo do ano. Mas nas últimas semanas, sem Jimmy Butler e sem Jonathan Kuminga, trocado para o Atlanta Hawks, Gui recebeu mais oportunidades do que nunca do técnico Steve Kerr.
A equipe praticamente não tem jogado com dois pivôs simultaneamente em quadra, então Gui encontrou seu espaço nos minutos deixados por Jimmy Butler como um jogador de presença no garrafão, mas também de espaçamento, tanto para chutes longos quanto para cortes em direção à cesta.
Na defesa, Gui compensa a falta de estatura da equipe, sendo ‘o mais alto entre os mais baixos’, podendo marcar os maiores jogadores adversários, o que nos leva ao próximo ponto.
Força
É nítida a diferença física da primeira temporada de Gui Santos para a atual. A evolução na força do brasileiro tem sido ainda mais ressaltada nas últimas semanas nas entrevistas dos companheiros de time Draymond Green e Buddy Hield (agora ex-companheiro, também trocado para os Hawks), que disseram que Gui é muito mais forte do que parece e que é muito difícil passar por ele na marcação.
Mas não é só na defesa que a evolução física de Gui é notada. Ela abriu novas possibilidades para o brasileiro no ataque dos Warriors. Nas últimas sete partidas, é um dos líderes na equipe em pontuação, com um arsenal muito mais vasto que no restante da carreira.
Se tornou comum ver Gui batendo a bola para dentro do garrafão, atacando e superando adversários para chegar livre na cesta, ou para encontrar companheiros livres no perímetro.
Confiança, repertório e intensidade
Na Summer League do ano passado, antes da temporada atual começar, Gui foi testado como armador do time. E teve desempenho interessante, apesar da visível falta de intimidade na função.
Porém chegou outubro e, com o início da temporada, Gui praticamente não pôde por em prática o que treinara nos meses anteriores. Mas com o passar das semanas, o brasileiro foi tendo cada vez mais espaço como organizador secundário da equipe.
Sem Stephen Curry nos últimos jogos, Gui assumiu ainda mais essa função (que ainda é mais cumprida por Pat Spencer e Brandin Podziemski), tendo inclusive jogadas chamadas especificamente para ele por Steve Kerr.
Com carta branca para atacar e cada vez mais confiança, Gui tem se tornado um jogador ainda mais perigoso, com ótimo aproveitamento nos arremessos e um número cada vez maior de assistências, mesmo sem prender a bola.
Nos últimos sete jogos, de acordo com as estatísticas da NBA, Gui conseguiuu, em média, 0,3 pontos a cada vez que recebe a bola. Acima dele, nos Warriors, apenas Stephen Curry e Gary Payton II. E o dobro das taxas de Brandin Podziemski e Pat Spencer.
Os arremessos de Gui geralmente partem, ou do catch and shoot, quando o jogador recebe e logo arremessa (com ótimos 46% de aproveitamento), ou nos drives, quando ele mesmo bate a bola em direção à cesta, até chutar próximo ao aro. Raramente são tentativas após o drible, mostrando que realmente não é sua caraterística.
Por isso, ele compensa com a movimentação. Foi o que mais correu nos últimos sete jogos no time: 3,57 quilômetros por partida, mais até que Stephen Curry (3,25 km/jogo), que tem como principal marca, além dos chutes de três pontos, a constante movimentação sem a bola, até para gerar arremessos melhores.
Gui dinamiza e acelera o jogo, ficando poucos segundos com a posse a cada toque na laranja. São raríssimos os lances em que o brasileiro segura o lance batendo a bola por muito tempo antes de encontrar um passe ou arremessar.
Ele tem o ‘molho’
Tudo o que Gui Santos fez nas primeiras temporadas que o colocaram como um dos xodós do elenco e da torcida seguem presentes. A entrega em quadra, a determinação em se jogar nas bolas aparentemente perdidas, vibração com a torcida a cada posse convertida em cesta, além do esforço em situações de jogo que não aparecem nas estatísticas ainda fazem parte do ‘pacote Gui Santos’.
Não à toa, tem sido um dos principais assuntos nas entrevistas dos seus colegas, mesmo sem a presença constante de jornalistas brasileiros, o que poderia até enviesar o debate.
Além disso, Gui tem um dos maiores e mais clássicos motivadores da história da NBA: estar em último ano de contrato. Com garantia na liga até o fim de 2025-26, os ótimos desempenhos devem render um bom dinheiro e mais alguns anos na NBA nas próximas temporadas, seja nos Warriors, seja em outra franquia.
Mas não se apeguem aos números
Apesar das estatísticas relevantes de Gui Santos, e sem querer conter a empolgação com as atuações do brasileiro, cabe o aviso: a tendência é de que os números caiam nas próximas semanas, por dois motivos principais.
O primeiro é a chegada de Kristaps Porzingis, trocado na última semana por Kuminga. Com o pivô em quadra, que chega para ser titular, a minutagem de Gui Santos pode diminuir um pouco, visto que, ao invés de dividir quadra com Draymond Green e Al Horford, precisará disputar posição com eles nas prováveis formações com dois pivôs que os Warriors passarão a usar.
O segundo é um reflexo natural do sucesso do brasileiro: as defesas devem prestar cada vez mais atenção nele. É claro, Gui não será a prioridade dos sistemas adversários, principalmente quando Curry estiver em quadra.
Mas o ala já mostrou que, mesmo com poucos espaços, consegue criar ótimas situações ofensivas para o time, seja em arremessos ou passes para companheiros livres. E se Gui pode ter sido beneficiado por não ter o mesmo prestígio de colegas como Al Horford e De’Anthony Melton, a temporada 2025-26 pode servir para colocá-lo de vez nos radares dos adversários.
O que importa, daqui para frente, é que Gui siga como uma peça fundamental no elenco, seja como titular, seja vindo do banco com minutagem relevante e participação nos momentos mais importantes da partida.
Até porque Gui mostrou que pode fazer ainda mais diferença quando joga ao lado de Curry, Green, Horford e, principalmente, De’Anthony Melton, um dos melhores ‘glue guy’ da NBA, aquele jogador que mesmo sem grandes estatísticas faz todo o time funcionar.
Pontos de lapidação
Nem tudo foi positivo nessa sequência de sete ótimos jogos de Gui Santos. O aproveitamento nos lances livres foi baixíssimo: apenas 57%. É bem verdade que ele não é o tipo de jogador que recebe muitas faltas, fazendo com que seus lances livres errados não tenham tanto peso assim no placar dos jogos. Ainda assim, é um índice abaixo do aceitável.
Outro ponto que ficou mais evidente conforme Gui passou a ter mais a bola, é a capacidade do drible (no sentido do dribble, em inglês, o controle de bola e a habilidade em gerar boas situações a partir disso), que ainda carece de certo aprimoramento, haja visto alguns turnovers que o brasileiro comete quando é pressionado.
É preciso considerar, contudo, que não existe jogador que não cometa erros nessas situações, nem mesmo as referências Kyrie Irving e Stephen Curry, por exemplo. E também é certo que quanto mais o jogador tem a bola na mão, maior é o número absoluto de erros que ele tende a cometer.
E que o basquete da vida real está longe de ser um vídeo game, em que o jogador pode aumentar todos os atributos do personagem, criando um atleta perfeito. Porém, por mais natural que seja Gui Santos desempenhar melhor outras funções, um drible mais fluido, apesar de fazer com que possivelmente prenda mais a bola, pode abrir caminho para novas possibilidades dentro da quadra, além de reduzir o número de erros.
Por fim, Gui ainda não se destaca na defesa individual, especialmente quando o atacante adversário o consegue colocar nas costas, situação que aconteceu diversas vezes contra Dillon Brooks na partida contra o Phoenix Suns, por exemplo.
E marcando adversários maiores, a tendência é esse tipo de jogada acontecer cada vez mais até o fim da temporada. Dito isso, é nítida a melhora do brasileiro defensivamente, deixando de ser uma presa fácil para os oponentes. Mas há espaço para ser ainda mais efetivo.
De resto, Gui segue com ótima leitura do ataque adversário, especialmente sem a bola, com dobras, coberturas e antecipações muito eficientes.
Fonte: ESPN









