No Dia Internacional da Mulher, a data vai além de homenagens simbólicas. É também um momento de reconhecer as contribuições das mulheres em diferentes áreas da sociedade, inclusive na ciência. Embora o número de pesquisadoras tenha crescido nas últimas décadas, a presença feminina ainda enfrenta desafios relacionados à visibilidade, financiamento e reconhecimento acadêmico.
Em Sergipe, diversas mulheres vêm contribuindo para ampliar o conhecimento científico em áreas que vão da educação à saúde, passando pelas ciências humanas e sociais. Professoras, pesquisadoras e intelectuais formadas ou atuantes no estado ajudam a fortalecer a produção científica regional e nacional, formando novas gerações de pesquisadores e produzindo estudos que dialogam com os desafios da sociedade brasileira.
Nesta reportagem, reunimos oito cientistas sergipanas que se destacam pela relevância de suas pesquisas e contribuições acadêmicas.
1- Beatriz Gois Dantas

Nascida em Lagarto (SE), Beatriz Góis Dantas é antropóloga, escritora e professora emérita da Universidade Federal de Sergipe (UFS). Foi uma das pioneiras da antropologia no estado e tornou-se referência nacional nos estudos sobre cultura popular, religiões afro-brasileiras e etno-história indígena.
Uma de suas contribuições mais importantes foi o estudo das Taieiras de Laranjeiras, tradição cultural afro-sergipana que ela pesquisou desde a década de 1960. O trabalho resultou no livro “A Taieira de Sergipe” (1972), considerado uma obra clássica sobre a cultura popular do estado.
Ao longo da carreira, também produziu pesquisas importantes sobre Candomblé, identidade afro-brasileira e patrimônio cultural, ajudando a consolidar o campo da antropologia cultural no Nordeste. Em reconhecimento à sua trajetória acadêmica, recebeu o Prêmio de Excelência Acadêmica em Antropologia da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS).
2 – Adriana Gibara Guimarães

Natural de Aracaju, Adriana Gibara Guimarães é graduada em Farmácia, mestre em Ciências Farmacêuticas e doutora em Ciências da Saúde, todos os títulos obtidos pela Universidade Federal de Sergipe. Atualmente, é professora associada do Departamento de Farmácia e dos Programas de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas e Ciências da Saúde da UFS, consolidando-se como uma das principais vozes da ciência no Nordeste.
Sua área de atuação principal é a Farmacologia, com foco em Química Medicinal e Biomolecular. O aspecto mais relevante de sua pesquisa envolve a investigação de produtos naturais e substâncias bioativas (como óleos essenciais e terpenos) para o tratamento da dor e inflamação. Seu trabalho busca entender como compostos extraídos da biodiversidade podem ser transformados em novos medicamentos mais eficazes e com menos efeitos colaterais para doenças crônicas.
Ela pertence ao prestigiado “World’s Top 2% Scientists”, ranking elaborado pela Universidade de Stanford (EUA) em parceria com a editora Elsevier. Este levantamento identifica os pesquisadores mais influentes do mundo com base no impacto de suas publicações e no número de vezes que seus trabalhos são citados por outros cientistas globalmente. Adriana figura nesta lista há vários anos consecutivos, chegando a ser classificada entre os 0,5% mais influentes do planeta, o que atesta a qualidade internacional da ciência produzida em Sergipe.
3 –Jullyana de Souza Siqueira Quintans

Natural de Aracaju, a trajetória de Jullyana de Souza Siqueira Quintans é um exemplo de “prata da casa” que conquistou o globo. Toda a sua base intelectual foi construída na Universidade Federal de Sergipe (UFS), onde percorreu todos os degraus acadêmicos: da graduação ao doutorado em Ciências da Saúde. Hoje, como professora associada do Departamento de Fisiologia, ela não apenas leciona, mas coordena frentes de pesquisa que colocam o estado de Sergipe no mapa das grandes descobertas biotecnológicas.
No campo científico, o trabalho de Quintans é focado na neuropsicofarmacologia, uma área que investiga como substâncias químicas afetam o sistema nervoso. O diferencial de sua produção reside na busca por novos tratamentos para a dor crônica e processos inflamatórios, utilizando moléculas inovadoras, tanto derivadas da rica flora brasileira quanto sintetizadas em laboratório. Suas descobertas buscam oferecer alternativas terapêuticas mais potentes e com efeitos colaterais reduzidos, atacando problemas de saúde que afetam a qualidade de vida de milhões de pessoas.
A relevância de Jullyana Quintans também é ratificada pelo ranking “World’s Top 2% Scientists”, da Universidade de Stanford/Elsevier. Somando a produção de elite à orientação de dezenas de mestres e doutores, a docente consolida sua posição entre os pesquisadores mais influentes do mundo. Essa trajetória, pautada pela inovação em biotecnologia e saúde, reafirma a capacidade de Sergipe em fundamentar descobertas científicas em escala internacional.
4 – Divanizia do Nascimento Souza

Referência na Física Médica brasileira, a aracajuana Divanizia do Nascimento Souza é Professora Titular da Universidade Federal de Sergipe (UFS). Sua trajetória acadêmica une a graduação em Física pela UFS à especialização em Tecnologia Nuclear, com mestrado e doutorado realizados na USP, atuando hoje no cruzamento estratégico entre saúde e ciências exatas.
O foco central de sua produção científica é a proteção radiológica e dosimetria, destacando-se pela criação de materiais dosimétricos inéditos. Esses dispositivos são cruciais para medir doses de radiação em exames e radioterapias, assegurando que pacientes e equipes médicas operem com máxima segurança e precisão técnica, reduzindo riscos de exposições indevidas.
Reconhecida com o Prêmio Pesquisador Destaque da Fapitec, Divanizia também lidera a gestão científica em Sergipe, coordenando a expansão de laboratórios e da pós-graduação local. Sua influência é determinante para o avanço das tecnologias nucleares no Nordeste, sendo peça-chave na formação de novas gerações de especialistas voltados à medicina de alta tecnologia.
6 – Lucia Calumby
Lúcia de Fátima Calumby Costa é uma figura histórica para a ciência e a gestão técnica em Sergipe. Formada em Química Industrial pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), ela consolidou sua trajetória no Instituto Tecnológico e de Pesquisas do Estado de Sergipe (ITPS), onde ingressou por concurso público na década de 1980 e tornou-se a primeira mulher a assumir a presidência da autarquia.
Sua atuação profissional é marcada pela defesa do controle de qualidade e da metrologia legal no estado. O aspecto mais relevante de sua contribuição foi a modernização dos laboratórios de análises químicas e a expansão das atividades do ITPS como órgão delegado do Inmetro. Sob sua gestão, o instituto fortaleceu a fiscalização de produtos e serviços, garantindo a conformidade técnica que protege tanto o setor produtivo quanto o consumidor final em Sergipe.
Além de sua produção técnica, Lúcia Calumby destacou-se pela liderança em redes de tecnologia, integrando conselhos e articulando políticas públicas para o desenvolvimento científico regional. Seu legado é pautado pela interiorização das ações tecnológicas e pelo incentivo à pesquisa aplicada, sendo uma referência de pioneirismo feminino na administração de instituições científicas de alto nível no Nordeste.
6 – Patrícia Severino

Nascida na capital sergipana, Patrícia Severino é um dos nomes de maior projeção do Instituto de Tecnologia e Pesquisa de Sergipe (ITPS). Sua carreira é focada na Engenharia de Processos e Nanotecnologia, áreas onde desenvolve soluções avançadas para a saúde, transformando pesquisas de laboratório em produtos com patentes registradas.
O ponto alto de sua visibilidade internacional foi a conquista do prêmio “25 Mulheres na Ciência – América Latina”, concedido pela gigante tecnológica 3M. Esse reconhecimento seleciona cientistas cujos projetos geram impacto social direto e inovação prática; no caso de Patrícia, o destaque foi seu trabalho com nanocarreadores de fármacos, que permitem levar medicamentos de forma certeira ao local da doença, otimizando tratamentos de pele.
Para além dos títulos, Patrícia se consolidou como uma peça-chave no ecossistema de inovação de Sergipe, figurando também no ranking de influência da Universidade de Stanford.
7 – Victória Louise dos Santos

Aos 25 anos, a aracajuana Victória Louise dos Santos é a prova de que a ciência não tem idade. Doutoranda em Biotecnologia Industrial pela Universidade Tiradentes (Unit), ela começou a trilhar seu caminho ainda na graduação em Farmácia. Hoje, sob a mentoria de Patrícia Severino, Victória é uma das mentes mais brilhantes da nova geração, unindo o rigor acadêmico a uma sensibilidade prática para problemas globais de saúde.
Sua pesquisa de maior repercussão foca no combate ao câncer de pele através de um curativo inteligente. Trata-se de uma membrana bioativa feita de polímeros naturais que, ao entrar em contato com a lesão e ser ativada por uma fonte de luz, libera substâncias que destroem as células tumorais. Essa tecnologia oferece uma alternativa menos invasiva e mais direcionada do que os tratamentos convencionais, atacando o tumor sem agredir o restante do corpo.
Esse projeto audacioso também rendeu a Victória o prêmio internacional “25 Mulheres na Ciência – América Latina”, da 3M. O reconhecimento coloca a jovem sergipana em um grupo seleto de pesquisadoras que transformam laboratórios em espaços de esperança real.
8 – Dalila Xavier de França

Diferente de quem analisa dados em tubos de ensaio, a aracajuana Dalila Xavier de França utiliza as salas de aula e a dinâmica social como seu campo de estudo. Professora Titular na Universidade Federal de Sergipe (UFS), ela é uma das principais vozes da Psicologia Social e Educacional no Brasil, tendo construído parte de sua especialização acadêmica na Universidade de Lisboa, em Portugal.
Sua pesquisa investiga o impacto do preconceito e dos estereótipos raciais no desenvolvimento infantil. Dalila estuda como a percepção de professores e o clima das salas de aula afetam o desempenho acadêmico de estudantes negros, fornecendo dados científicos para a criação de políticas de educação antirracista e inclusiva.
Além da produção teórica, ela lidera grupos de pesquisa na UFS que buscam transformar a escola em um espaço de equidade. Sua atuação é estratégica para o Brasil, pois une a ciência do comportamento ao fortalecimento de diretrizes pedagógicas que combatem a discriminação no cotidiano escolar.
O legado
A trajetória dessas pesquisadoras mostra que a ciência brasileira não se constrói apenas nos grandes centros do país. Universidades e centros de pesquisa em estados como Sergipe têm papel fundamental na produção de conhecimento, na formação acadêmica e na investigação de temas que impactam diretamente a sociedade.
Ao destacar cientistas sergipanas neste 8 de março, a reportagem busca não apenas reconhecer suas contribuições, mas também inspirar novas gerações de meninas e jovens mulheres a ocupar espaços na ciência, na pesquisa e na produção de conhecimento.
Fonte: Fan F1









