Foi na Camacha, numa pequena vila da paradisíaca Ilha da Madeira, terra de Cristiano Ronaldo, que se jogou futebol pela primeira vez em Portugal. Aconteceu em 1875, através de um jovem britânico chamado Harry Hinton.
Entretanto, acabou por ser um português de origem venezuelana, que, em 2000, começou a colocar de vez a região de apenas seis mil habitantes no mapa do mundo da bola: Leonardo Jardim.
O treinador do Flamengo esteve durante nove anos na Associação Desportiva da Camacha: três como auxiliar e cinco como treinador principal (2000 a 2008). Deixou mesmo a sua marca. Fez história.
“O Leonardo está intimamente ligado à história da Camacha, e a história da Camacha está ligada ao Leonardo. Ele nos mostrou que não há limites, que muitas vezes os limites são impostos por nós próprios. Ele abria essa porta de dizer ‘nós conseguimos, nós vamos lá chegar’, e todo o percurso dele no futebol demonstra isso”, destacou Ricardo Miranda, presidente da AD Camacha, em entrevista à ESPN.
“Nós festejamos os sucessos dele, porque é o nosso sucesso também. Sentimos mesmo que são um bocadinho nossos, porque foi efetivamente aqui que ele nasceu para o futebol”, completou.
O treinador português, de fato, sempre teve bastante ambição e resiliência. Era professor (de educação física). Estudioso. Não menos importante: de palavra.
“Ele [Leonardo] sempre falava conosco, era novo, e dizia que, se ele até os 40 anos, não chegasse à primeira liga ou não subisse na carreira, passava a se dedicar somente aos estudos. Falava assim: ‘Vou organizar a minha vida e voltar a dar aulas’. Era o objetivo dele”, contou o ex-jogador e capitão Zé Paulo, agora funcionário do clube madeirense, atualmente na quarta divisão nacional.
A promessa foi mesmo cumprida. O treinador deixou a AD Camacha aos 33 anos e, pouco antes de completar 38, já estava na elite portuguesa, logo após ter sido campeão da segunda divisão com o Beira-Mar (2009/10). Depois, ainda passou por Braga (2011/12) e Sporting (2013/14).
“Era muito estudioso, gostava muito de analisar os adversários, para nos precaver de certos pormenores durante o jogo, o que eles poderiam fazer, o que não poderiam fazer. Na altura, era um futebol diferente, não jogávamos assim tão taticamente. Tinha tática, mas era diferente. Era muito mais na base da força”, explicou Zé Paulo.
Jardim desbravou Portugal e, na sequência, rodou a Europa (Grécia e França) e o Oriente Médio (Arábia Saudita, Qatar e Emirados Árabes Unidos). Desembarcou no Brasil em 2025. O trabalho no Cruzeiro o credenciou para assumir o atual campeão da Libertadores e do Brasileirão em 2026. Tudo isso carregando o orgulho “camacheiro”.
“O que é ser da Camacha? Sente-se. Se ele não fosse a excelente pessoa que é, penso que não teria conquistado tudo aquilo que conquistou. Tem a palavra para o roupeiro, tem a palavra para o presidente, e também tem a palavra para os jogadores. É ser humano cinco estrelas”, elogiou o amigo e antigo roupeiro Zé Minhoca, que trabalhou durante quatro décadas consecutivas na AD Camacha.
Por Leonardo Jardim, os apaixonados pela AD Camacha, especialmente os mais jovens, neste momento também são torcedores do Flamengo.
“O Flamengo é um clube conhecido mundialmente, e até nas peladinhas de rua aqui na Madeira, nós vemos muitos jovens com camisas do Flamengo. O Flamengo tem essa mística. Tenho certeza que, com a presença do Leonardo Jardim, vai ser o nosso clube brasileiro”, contou o Hugo Oliveira, responsável pela torcida organizada Alma Azul 78.
Já os mais velhos, que o vêem como um familiar, são gratos. Mas também não deixam as “cobranças” de lado.
“Vejo o sucesso dele como se fosse um irmão meu, como se fosse eu. Estou super feliz pela carreira do Leonardo”, confidenciou Zé Minhoca.
“Agradeço tudo aquilo que ele foi para mim. Que ele seja super feliz. Há uma coisa: está na hora de vir para a Madeira. Ele dizia que, com 50 anos, desistiria do futebol. Já está com mais de 50 anos e continua no futebol [risos]”, brincou.
Leonardo Jardim já está com 51 anos. Continua longe de casa, mas sem esquecer Portugal. Sem esquecer, sobretudo, a Ilha da Madeira, a região da Camacha e, claro, a Associação Desportiva da Camacha.
Fonte: ESPN








