“Olá, sou Eduardo García, do restaurante Máximo. Estamos muito focados no futebol, mas não vamos nos esquecer da Venezuela.”
A mensagem é breve, quase casual. Mas, por trás desse convite, existe uma história longa, árdua e profundamente humana. Eduardo “Lalo” García não fala de longe, ele fala a partir da memória.
Ele nasceu em um pequeno povoado rural nas montanhas de Guanajuato, no México, onde, como em muitas comunidades, o futuro apontava para uma única direção: migrar para o norte. Sua infância não foi passada em salas de aula, mas nos campos agrícolas da Flórida, da Geórgia, de Ohio e de Michigan.
Décadas mais tarde, já consagrado como um dos chefs mais influentes do México, García faz um chamado urgente e singular à ação: ajudar aqueles que enfrentam, neste momento, uma emergência que, mais uma vez, se impõe como algo imediato.
“Neste domingo, aqui no Máximo, vamos preparar kits de hambúrguer deliciosos para arrecadar fundos para a Save the Children (organização humanitária dedicada à infância), para que vocês também possam demonstrar seu apoio”, anunciou o chef nas redes sociais. “Nossos irmãos e irmãs venezuelanos precisam de nós.”
Seu apelo surgiu em um momento particularmente crítico. Na quarta-feira, 24 de junho, dois terremotos, de magnitudes 7,2 e 7,5, atingiram a Venezuela, causando o desabamento de edifícios e deixando milhares de famílias desalojadas.
No início de julho, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) estimou que cerca de 680 mil crianças venezuelanas enfrentariam dificuldades em decorrência dos terremotos. Até o momento, a tragédia deixou quase 3 mil mortos, mais de 16 mil feridos e mais de 16 mil desabrigados.
A emergência: o urgente e o invisível
“Tudo o que uma criança não recebe hoje em termos de nutrição e estabilidade coloca em risco o seu desenvolvimento futuro”, alerta Begoña Laviña Soriano, diretora de Alianças e Marketing da Save the Children no México.
Após os terremotos, ele explica, as necessidades mais imediatas são básicas e urgentes: abrigo, alimentação, água e assistência médica. Mas há também riscos menos visíveis. Em meio ao caos, algumas crianças podem perder o contato com suas famílias ou ficar expostas a situações de abuso e exploração.
Diante da insegurança alimentar que já aflige os lares venezuelanos, a organização não precisou começar do zero, pois já atuava no local desde 2018. Hoje, sua resposta é coordenada com organizações locais para identificar rapidamente as famílias mais necessitadas.
Mas há uma outra dimensão, mais silenciosa, nessa questão. “Há sempre um componente de apoio psicossocial para as crianças”, explica a organização à CNN em Espanhol. “Não se trata apenas de suprir necessidades básicas; trata-se de ajudá-las a processar o ambiente em que estão crescendo.”
Em meio a condições tão precárias, criam-se espaços seguros onde as crianças podem brincar, conversar e recuperar uma sensação de normalidade. Afinal, uma crise prolongada faz mais do que apenas desgastar a economia, ela perturba a própria infância.
Da cozinha à prestação de ajuda
A trajetória de García não foi linear. Ele chegou à cozinha quase por acaso, começando como lavador de pratos em Atlanta, nos Estados Unidos. De lá, passou a preparar saladas e, em seguida, ingressou em uma cozinha profissional, onde descobriu um mundo desconhecido, marcado por chefs com formação europeia, técnicas precisas e disciplina rigorosa. Ele trabalhava incansavelmente.
Mas, mesmo assim, sua motivação não era uma vocação, e sim a sobrevivência. “Quando eu vivia ilegalmente nos Estados Unidos, não me sentia humano”, diz ele. Hoje, ao testemunhar crises como a da Venezuela, essa lembrança permanece viva.
“Estamos testemunhando a capacidade do mundo de segregar as pessoas… às vezes tratando-as como mero gado”, reflete ele. “E então ocorrem tragédias como terremotos, e as pessoas não estão preparadas. São sempre as pessoas comuns que acabam saindo perdendo.”
Para ele, a resposta está na ação coletiva. “Imagine se 10% da população fizesse isso. Uma pessoa sozinha pode não parecer muito, mas se outras se juntarem, tudo muda”, diz ele. “Se eu consigo fazer isso, por que todos os donos de restaurantes do mundo não podem fazer o mesmo?”
Movido por essa convicção, García fez um apelo direto aos seus colegas de profissão: “Adoro todos os meus amigos chefs e me importo profundamente com todos os donos de restaurantes, mas sinto que todos deveriam aderir a essa causa. Não estamos falando de um compromisso diário, apenas dois jantares por ano em todo o país gerariam centenas de milhões de pesos de que a fundação carece, mas de que necessita desesperadamente.”
Ao colocar essa ideia em prática, ele tomou medidas imediatas. No domingo (5), o Máximo abriu especialmente para vender pacotes de hambúrguer, incluindo sua versão de Wagyu, com toda a renda revertida para os programas da Save the Children voltados a crianças na Venezuela. A iniciativa também incluiu pedidos feitos pelo Rappi e doações online.
A resposta foi rápida. A partir das 10h, o fluxo de clientes ao restaurante, localizado no bairro Roma, na Cidade do México, aumentou de forma constante. Em questão de horas, cerca de 400 hambúrgueres foram vendidos, conforme o próprio García confirmou à CNN em Espanhol.
“Embora sejamos apenas um grão de areia, continuamos firmes porque queremos que mais pessoas participem”, explica o chef sobre a importância de manter o movimento vivo. “Se nós, que começamos isso, desistíssemos… bem, já são poucas as pessoas dispostas a dedicar seu tempo a esse tipo de ajuda humanitária. Se uma pessoa sai, o número diminui ainda mais.”
“O Lalo facilita a participação das pessoas”, explica Begoña Laviña. “Ele transforma algo de que você gosta de comer em uma maneira direta de ajudar.”
Ela também ressalta que esse não é um esforço isolado. “Trabalhamos com ele há cerca de quatro anos. Tudo o que o Lalo organiza é um grande sucesso, pois nasce de uma conexão genuína com a causa. Em situações de emergência, ele é um dos primeiros a agir. Ele nos procura, propõe iniciativas e também consegue engajar outros chefs e aliados.”
Ajuda à distância
Para milhões de venezuelanos que vivem no exterior, a crise é vivenciada sob o filtro da distância, de mensagens esporádicas e da incerteza. Nesse contexto, tais iniciativas buscam romper a paralisia e oferecer um canal direto de participação. No entanto, como ocorre com qualquer catástrofe internacional, surge a mesma pergunta: será que os recursos realmente chegam ao destino pretendido?
García atribui a responsabilidade ao doador, ressaltando a necessidade de filtrar o ruído digital e verificar as informações. “Hoje, com tanta informação por toda parte, as pessoas precisam se informar para identificar quais fundações estão realmente fazendo a diferença”, alerta o chef, citando as operações da Save the Children e as iniciativas de assistência alimentar da World Central Kitchen, liderada pelo chef José Andrés, como referências de transparência.
A própria organização confirma a eficácia do mecanismo no terreno. “Atuamos em emergências há mais de 100 anos”, observa Begoña Laviña. “Sabemos como levar recursos aonde eles precisam chegar.”
Segundo a organização, a prioridade imediata para o financiamento humanitário é o fornecimento de água, alimentos e assistência médica básica, seguido pela implementação de programas para garantir a permanência na escola e oferecer apoio psicossocial. Afinal, a vulnerabilidade de uma criança não termina quando ela deixa de figurar nas manchetes.
E, embora o expediente do dia no restaurante tenha encerrado, os canais de atendimento permanecem abertos online.
Por trás do hambúrguer de Máximo e da Save the Children, há mais do que apenas uma receita. Existe uma história de migração, perda e reconstrução. Mas, acima de tudo, há uma urgência humanitária resumida nas palavras do próprio Lalo García: “Quando alguém perde tudo, uma refeição pode ser a chance de recomeçar”.
Fonte: CNN









