Durante décadas, um bloco gigantesco de concreto cresceu em Hong Kong como se fosse um organismo vivo, sem projeto central e quase sem espaço entre suas construções. Por trás das fachadas tomadas por fios, canos e varandas improvisadas, milhares de pessoas enfrentavam uma rotina que parecia impossível, cercadas por corredores onde a luz do Sol raramente conseguia entrar.
Como tantos prédios conseguiram crescer sem planejamento oficial?
A origem do lugar estava ligada a uma antiga fortificação chinesa que permaneceu em uma situação política indefinida após Hong Kong passar ao controle britânico. Durante anos, autoridades chinesas e britânicas evitaram assumir plenamente a administração da área, criando uma espécie de vazio de poder dentro de uma das cidades mais movimentadas da Ásia.
Com pouca fiscalização, novos moradores começaram a ocupar o terreno e ampliar as construções existentes. Prédios eram erguidos muito próximos uns dos outros, apartamentos recebiam extensões improvisadas e corredores surgiam entre diferentes blocos, formando uma massa urbana que crescia para cima e para os lados sem seguir um projeto arquitetônico unificado.
O que era a cidade murada de Kowloon por dentro?
A revelação estava em um complexo conhecido como cidade murada de Kowloon, onde aproximadamente 33 mil pessoas chegaram a viver em uma área de cerca de 2,6 hectares. Os edifícios haviam crescido de forma tão compacta e interligada que, vistos de fora, pareciam partes de uma única construção gigantesca.
Por dentro, o espaço reunia residências, pequenas fábricas, lojas, restaurantes, escolas, templos, consultórios e oficinas. Era possível atravessar diferentes edifícios por passagens internas, escadas e corredores elevados, criando a impressão de uma cidade inteira comprimida dentro de um enorme bloco de concreto.
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Por que os andares inferiores permaneciam escuros durante o dia?
A proximidade entre os prédios bloqueava quase toda a entrada de luz natural. Varandas, tubulações, fios elétricos, placas, passarelas e ampliações improvisadas cobriam os espaços entre as construções, transformando muitas vielas em túneis úmidos e estreitos onde lâmpadas precisavam permanecer acesas durante o dia.
- Corredores tão estreitos que duas pessoas mal conseguiam passar
- Lâmpadas ligadas durante o dia em áreas sem janelas
- Tubulações aparentes atravessando paredes e tetos
- Apartamentos construídos sobre oficinas e pequenas fábricas
- Passagens internas ligando edifícios diferentes
- Telhados usados como áreas de circulação e convivência
Para complementar o tema, o canal South China Morning Post apresenta o vídeo “A rare look inside the Kowloon Walled City in 1990”. O material reúne imagens gravadas dentro do complexo pouco antes da demolição e ajuda a visualizar seus corredores, apartamentos, oficinas e passagens extremamente apertadas:
A ausência de ventilação também tornava muitos ambientes abafados, principalmente nos níveis inferiores. Canos vazavam, o esgoto apresentava problemas e a umidade permanecia presa entre as construções, mas os moradores adaptavam cozinhas, quartos e espaços de trabalho aos poucos metros quadrados disponíveis.
Quantas pessoas viviam na cidade murada de Kowloon?
As estimativas variam conforme o período e a forma de contagem, mas a população geralmente citada no fim da década de 1980 fica entre 33 mil e 35 mil moradores. Segundo o ArchDaily, cerca de 33 mil pessoas chegaram a ocupar apenas dois hectares, uma concentração sem comparação com bairros urbanos convencionais.
Essa densidade significava que dezenas de famílias podiam dividir o mesmo edifício, enquanto atividades comerciais funcionavam poucos metros abaixo ou ao lado dos apartamentos. Mesmo com problemas graves, o complexo mantinha uma economia própria e uma rede de serviços que atendia tanto moradores quanto clientes vindos de outras partes de Hong Kong.
| Característica | Informação aproximada |
|---|---|
| População no fim dos anos 1980 | Entre 33 mil e 35 mil moradores |
| Área ocupada | Cerca de 2,6 hectares |
| Altura predominante | Entre 10 e 14 andares |
| Quantidade estimada de blocos | Mais de 300 edifícios interligados |
| Início da demolição | Março de 1993 |
| Uso atual do terreno | Parque público histórico |
Como era a vida cotidiana dentro daquela cidade-edifício?
Embora o lugar tenha ficado conhecido por problemas sanitários, atividades ilegais e ausência de fiscalização, ele não era formado apenas por criminosos. Milhares de famílias trabalhavam, estudavam, cuidavam dos filhos e mantinham pequenos negócios dentro do complexo, criando relações comunitárias em meio a condições extremamente apertadas.
Nos telhados, onde havia mais luz e circulação de ar, crianças brincavam, moradores estendiam roupas e adultos descansavam após o trabalho. A área superior funcionava como uma espécie de praça coletiva, embora os aviões que se aproximavam do antigo aeroporto de Kai Tak passassem tão baixo que o barulho interrompia conversas e sacudia janelas.

Por que a cidade murada de Kowloon foi demolida?
No fim da década de 1980, os governos britânico e chinês chegaram a um acordo para desocupar e demolir o complexo. As autoridades alegavam que as condições estruturais, sanitárias e de segurança eram graves demais para permitir sua permanência, além de considerar inviável reformar centenas de edifícios construídos sem padrões regulares.
A retirada dos moradores começou após negociações e indenizações, enquanto a demolição foi realizada entre 1993 e 1994. No lugar do labirinto de concreto surgiu o Kowloon Walled City Park, inaugurado em 1995, com jardins e elementos que preservam parte da memória histórica da área.
Fonte: O Antagonista









