Os caracóis das Desertas sobreviveram em populações minúsculas, confinadas a menos de 400 metros quadrados, após cerca de 150 anos sem registros. Uma operação retirou parte dos animais do risco imediato, multiplicou descendentes em cativeiro e iniciou a devolução à natureza.
Quais foram as quatro espécies reencontradas depois de 150 anos?
As espécies são Atlantica calathoides, Geomitra coronula, Discula lyelliana e Geomitra grabhami. Todas são caracóis terrestres endêmicos das Ilhas Desertas, o que significa que suas populações naturais não existem em qualquer outra parte do planeta.
Os animais foram redescobertos entre 2008 e 2012, aproximadamente um século e meio após os últimos registros conhecidos. A IUCN classifica as quatro espécies como criticamente ameaçadas e descreve o resgate como uma ação contra uma extinção iminente.

Por que menos de 400 metros quadrados representavam um risco extremo?
Cada espécie estava limitada a uma população única e extremamente restrita, com o conjunto dos locais conhecidos ocupando menos de 400 metros quadrados. Em uma área tão pequena, seca, deslizamento, incêndio ou aumento de predadores poderia eliminar grande parte dos indivíduos em pouco tempo.
O monitoramento realizado entre 2012 e 2019 indicou populações insustentáveis, e restavam menos de 200 animais quando a operação ganhou escala. Cabras alteravam a vegetação e aceleravam a erosão, enquanto camundongos consumiam caracóis e sementes necessárias à recuperação do habitat.
Como a operação conseguiu multiplicar animais tão raros?
Em abril de 2021, o governo regional e instituições de conservação iniciaram a retirada controlada de exemplares para reprodução fora do ambiente natural. Equipes precisaram aprender temperatura, umidade, alimentação, reprodução e desenvolvimento de espécies que nunca haviam sido mantidas sob cuidados humanos.
O programa reuniu o Instituto das Florestas e Conservação da Natureza, grupos da IUCN e zoológicos de Chester, Bristol e Beauval. A reprodução controlada produziu milhares de descendentes e criou populações de segurança, reduzindo o risco de desaparecimento causado por um único evento na ilha.
Etapa
Período
Resultado
Redescoberta
2008 a 2012
Quatro espécies localizadas
Monitoramento
2012 a 2019
Risco populacional confirmado
Resgate
Desde 2021
Criação de núcleos em cativeiro
Reprodução
Várias gerações
Milhares de descendentes
Quantos caracóis foram devolvidos à Ilha do Bugio?
Em novembro de 2024, o relatório da IUCN registrou 1.326 indivíduos de Geomitra coronula e Discula lyelliana reintroduzidos. Páginas de parceiros informaram 1.329, diferença de três animais; a primeira soltura envolveu somente duas das quatro espécies.
Uma atualização do projeto registra nova soltura de 570 animais em abril de 2026, sendo 300 de G. coronula e 270 de D. lyelliana. A operação de conservação prevê reforços adicionais e a futura introdução de outra espécie quando houver condições adequadas.
Momento
Quantidade
Composição
Novembro de 2024
1.326 animais
Duas espécies reintroduzidas
Abril de 2026
570 animais
300 e 270 por espécie
Monitoramento
Sobrevivência acompanhada
Marcações individuais nas conchas
Próxima etapa
Novos reforços
Ampliação gradual do programa
Por que a Ilha do Bugio foi escolhida para receber os animais?
Bugio pertence ao mesmo arquipélago e possui registros fósseis que indicam a presença histórica desses caracóis. O local também passou por restauração ecológica e está livre de ameaças invasoras decisivas, como camundongos e cabras, presentes na área onde as populações foram resgatadas.
As solturas são acompanhadas com marcações nas conchas, levantamentos de campo e registros ambientais. Esses dados permitem avaliar sobrevivência, dispersão, crescimento e adaptação sem presumir que a reprodução em cativeiro garantirá automaticamente uma população estável.
- Controlar novamente qualquer espécie invasora detectada.
- Acompanhar a sobrevivência dos indivíduos marcados.
- Medir temperatura e umidade dos micro-habitats.
- Verificar reprodução e nascimento de novas gerações.
- Planejar reforços sem sobrecarregar o ambiente.
Leia também: Motorista apresentou CNH digital na blitz e acabou precisando da física antes de ser liberado
As quatro espécies já estão protegidas contra a extinção?
A operação reduziu o risco imediato, mas não tornou as espécies seguras. As populações naturais continuam pequenas, isoladas e dependentes de condições ambientais específicas, enquanto eventos climáticos, erosão e o retorno de invasores podem comprometer anos de trabalho.
O resultado mais importante é a criação de alternativas: populações sob cuidados humanos, habitat restaurado e reintroduções acompanhadas. A sobrevivência definitiva dependerá da formação de grupos autossustentáveis, capazes de se reproduzir por várias gerações sem novas retiradas ou solturas frequentes.
Fonte: O Antagonista









