Tudo sobre Inteligência Artificial
A Microsoft anunciou uma nova geração de ferramentas de inteligência artificial (IA) voltadas para cibersegurança, apostando em modelos especializados e agentes autônomos para proteger redes corporativas contra ameaças cada vez mais sofisticadas.
Continua após a publicidade
A empresa apresentou o modelo MAI-Cyber-1-Flash, desenvolvido especificamente para tarefas de segurança, e o Project Perception, uma plataforma que utiliza equipes de agentes de IA para identificar, analisar e corrigir vulnerabilidades em velocidade de máquina.
O anúncio ocorre em momento de crescente preocupação com o uso da IA por criminosos. Na semana passada, a OpenAI informou que dois de seus sistemas de IA saíram do controle e invadiram uma popular biblioteca da internet, episódio que evidenciou tanto o potencial quanto os riscos das novas tecnologias e reforçou a importância do desenvolvimento de ferramentas capazes de combater ataques conduzidos por IA.
A Microsoft está entre as empresas que buscam utilizar a mesma tecnologia empregada em ataques para fortalecer a defesa de redes e infraestruturas digitais. Segundo a companhia, a evolução dos modelos de IA tornou os ataques mais rápidos, baratos e complexos, exigindo uma nova abordagem para a segurança cibernética.
Microsoft defende democratização das ferramentas de defesa
- Executivos da Microsoft afirmam que sistemas avançados de cibersegurança precisam estar amplamente disponíveis para que mais organizações possam se proteger;
- Essa visão contrasta com a posição de parte da indústria de tecnologia e de autoridades em Washington (EUA), que defendem um controle mais rigoroso sobre modelos avançados de IA devido ao potencial de uso em atividades de invasão;
- “O gato já saiu da sacola”, afirmou Hayete Gallot, vice-presidente executiva responsável pelos esforços de segurança da Microsoft;
- Para David Weston, vice-presidente corporativo da companhia, a preocupação não está apenas nos modelos mais avançados disponíveis atualmente, mas na disseminação crescente dessas capacidades;
- “Muitos desses modelos estão ficando melhores”, disse ao The New York Times. “O que me preocupa não é o modelo da vez, mas que essa capacidade esteja mais difundida.”
Modelo foi treinado exclusivamente para cibersegurança
O novo MAI-Cyber-1-Flash foi desenvolvido especificamente para atividades de segurança digital.
Segundo a Microsoft, o treinamento do modelo utilizou décadas de dados coletados pela empresa durante respostas a incidentes de segurança enfrentados por seus clientes. A companhia destaca possuir acesso privilegiado a esse tipo de informação devido à ampla utilização de produtos, como Windows, Outlook e Azure, frequentemente alvos de ataques cibernéticos.
Mustafa Suleyman, responsável pelo desenvolvimento dos modelos de IA da Microsoft, afirmou que esse volume de dados contribuiu para o desempenho da nova tecnologia.
Diferentemente de outras empresas líderes em IA, a Microsoft informou que não submeteu o modelo a testes independentes antes de seu lançamento. Ainda assim, a empresa afirmou esperar que o MAI-Cyber-1-Flash alcance o melhor desempenho no benchmark CyberGYM, superando modelos desenvolvidos pela OpenAI e pela Anthropic.
Continua após a publicidade
Segundo a companhia, o sistema atende cerca de 90% das consultas relacionadas à segurança, reduzindo a necessidade de recorrer a modelos maiores e mais caros, que seriam necessários apenas em aproximadamente 10% dos casos.
Além disso, a Microsoft afirma que o custo de utilização do novo modelo é cerca de metade do observado em tecnologias concorrentes, em parte porque ele foi desenvolvido exclusivamente para tarefas de cibersegurança.
Project Perception reúne agentes especializados
O principal anúncio da empresa foi o Project Perception, apresentado como um sistema de segurança “agêntico” criado para enfrentar as novas ameaças trazidas pela IA.
Segundo a Microsoft, a plataforma reúne sinais, contexto, modelos e agentes especializados em um sistema capaz de aprender continuamente e transformar informações em proteção em tempo real, utilizando IA para defender contra ataques conduzidos por IA.
Continua após a publicidade
A empresa afirma que a segurança precisa de uma nova “Arquitetura Cibernética” (Cyber Stack), capaz de perceber riscos continuamente, raciocinar sobre grandes volumes de contexto e agir em velocidade de máquina, ao mesmo tempo em que mantém os profissionais de segurança no controle das decisões.
“O Project Perception transforma sinais em proteções em tempo real usando IA para defender contra IA”, informou a companhia.
Três equipes de agentes trabalham em conjunto
O Project Perception coordena três categorias de agentes especializados que atuam de forma integrada:
- Os agentes de Red Team procuram identificar possíveis caminhos que poderiam ser explorados por invasores antes que um ataque aconteça;
- Já os agentes de Blue Team analisam os riscos, interpretam o contexto das ameaças e determinam quais vulnerabilidades representam maior perigo;
- Por fim, os agentes de Green Team executam ações corretivas e fortalecem as defesas do ambiente digital.
Continua após a publicidade
Segundo a Microsoft, esses três grupos funcionam em um ciclo contínuo de descoberta, avaliação e aprimoramento da postura de segurança das organizações.
Em algumas situações, os agentes desenvolvidos pela empresa podem inclusive simular o comportamento de hackers para identificar falhas antes que elas sejam exploradas por criminosos.

Leia mais:
Arquitetura multimodelo busca equilibrar desempenho e custos
A Microsoft afirma que nenhuma IA é ideal para todas as tarefas de segurança. Por isso, o Project Perception utiliza uma arquitetura multimodelo, que seleciona continuamente o sistema mais adequado para cada atividade, considerando critérios, como qualidade, confiabilidade, latência e custo operacional.
Continua após a publicidade
Como parte dessa estratégia, o MAI-Cyber-1-Flash será integrado ao MDASH, plataforma da Microsoft voltada ao gerenciamento de vulnerabilidades de software.
Segundo a empresa, a combinação alcançou 96% de desempenho no benchmark CyberGym, resultado 12 pontos superior ao Mythos, da Anthropic, além de proporcionar quase 50% de redução de custos em comparação com a configuração atual do MDASH.
A companhia afirma que o novo modelo será incorporado futuramente a outros fluxos de trabalho de segurança, além da análise de vulnerabilidades.
Contexto compartilhado e resposta em tempo real
A Microsoft afirma que um dos diferenciais do Project Perception é a criação de um contexto de segurança continuamente atualizado.
Esse contexto reúne informações sobre ativos digitais, identidades, aplicações, dados, ambientes em nuvem, sistemas de IA, relações entre recursos, atividades e riscos, permitindo que todos os agentes compartilhem praticamente em tempo real a mesma compreensão do ambiente protegido.
Segundo a empresa, isso reduz a necessidade de reconstruir continuamente informações a partir de sinais isolados, tornando o raciocínio mais preciso e diminuindo o tempo de processamento, o consumo computacional e os custos de operação.
A plataforma também é integrada aos produtos Microsoft Security, permitindo que os agentes transformem automaticamente análises em ações de proteção, sempre mantendo os profissionais responsáveis pela segurança no controle das decisões.
A Microsoft destaca que a ameaça representada pela IA ganhou força no último ano, à medida que os modelos passaram a demonstrar grande capacidade para escrever código de computador.
Em abril, por exemplo, a Anthropic informou que utilizou um de seus modelos para localizar milhares de vulnerabilidades que permaneceram sem detecção durante anos em softwares populares. Considerando o potencial ofensivo da tecnologia, a empresa optou por disponibilizá-la apenas para um grupo restrito de organizações responsáveis por proteger infraestruturas críticas.
Pouco depois, OpenAI e Google também anunciaram que restringiriam o acesso a tecnologias semelhantes a parceiros selecionados. O governo dos Estados Unidos também começou a estudar formas de supervisão desses modelos, incluindo a possibilidade de criar um processo formal de revisão para novas IAs.
Ao mesmo tempo, especialistas alertam que modelos disponíveis publicamente também podem ser utilizados para ataques. No mês passado, pesquisadores da Universidade de Toronto (Canadá) anunciaram ter desenvolvido, utilizando tecnologias de IA de acesso livre, um “worm” capaz de explorar qualquer vulnerabilidade conhecida em computadores ao redor do mundo.
Nas últimas semanas, duas startups chinesas também lançaram modelos que, segundo o Times, se aproximam do desempenho das principais tecnologias desenvolvidas pela Anthropic e pela OpenAI.
A Microsoft informou que o Project Perception entrará em prévia pública a partir de 3 de agosto para clientes ao redor do mundo.
Segundo a empresa, a segurança sempre foi uma corrida entre atacantes e defensores, mas a IA altera a velocidade, a escala e a economia dessa disputa. Nesse cenário, a companhia afirma que os defensores precisarão de sistemas capazes de perceber, raciocinar e agir continuamente ao seu lado.
Rodrigo Mozelli
Rodrigo Mozelli é jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) e, atualmente, é redator do Olhar Digital.
Fonte: Olhar Digital









