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A rede de 131 mil antenas espalhada por dois continentes criada para ouvir quando as primeiras estrelas acenderam


Em dois desertos separados por milhares de quilômetros, estruturas muito diferentes estão sendo montadas para executar a mesma tarefa. Algumas parecem árvores metálicas; outras são grandes pratos móveis. Quando seus sinais forem combinados, elas funcionarão como um ouvido gigantesco voltado para as regiões mais distantes do cosmos.

Por que o telescópio SKA não será uma única antena?

O Square Kilometre Array não será um telescópio tradicional instalado sob uma única cúpula. O projeto reúne dois grandes conjuntos de radioantenas: o SKA-Low, construído no oeste da Austrália, e o SKA-Mid, instalado na região de Karoo, na África do Sul. Segundo o SKA Observatory, os dois sistemas observarão faixas diferentes do espectro de rádio e trabalharão como partes de um mesmo observatório internacional.

Essa divisão permite captar sinais que exigem tecnologias diferentes. Na Austrália, antenas fixas e compactas receberão frequências mais baixas, entre 50 e 350 MHz. Na África do Sul, grandes pratos direcionáveis observarão frequências de 350 MHz a 15,4 GHz. Em vez de construir uma estrutura impossível de movimentar, os engenheiros espalharam milhares de receptores por áreas enormes e transferiram a união dos sinais para computadores.

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Quantas antenas formarão o telescópio SKA?

O SKA-Low terá 131.072 antenas de aproximadamente 2 metros, organizadas em 512 estações com 256 unidades cada. Metade dessas estações ficará concentrada em um núcleo com cerca de 1 quilômetro de diâmetro, enquanto as demais seguirão três braços espirais pelo deserto australiano. O SKA-Mid reunirá 197 pratos, incluindo as 64 antenas já existentes do radiotelescópio MeerKAT.

  • SKA-Low: 131.072 antenas
  • Estações australianas: 512 conjuntos
  • Antenas por estação: 256 unidades
  • SKA-Mid: 197 pratos
  • Maior separação na Austrália: Cerca de 74 quilômetros
  • Maior separação na África do Sul: 150 quilômetros

O vídeo apresenta o projeto SKA e mostra como milhares de antenas serão distribuídas pela paisagem remota da Austrália. As imagens ajudam a visualizar por que o observatório não se parece com um telescópio convencional e como estruturas aparentemente simples poderão trabalhar juntas para captar sinais extremamente fracos do universo distante:

Como milhares de estruturas conseguem enxergar como um único instrumento?

A técnica utilizada recebe o nome de interferometria. As ondas de rádio vindas do espaço não alcançam todas as antenas exatamente no mesmo instante. Cada receptor registra uma versão ligeiramente diferente do sinal, e essas diferenças de tempo e fase revelam informações sobre a posição e a estrutura do objeto observado. Depois, computadores sincronizam e combinam os registros para formar uma imagem.

Quanto maior a distância entre as antenas, maior pode ser a resolução alcançada pelo conjunto. É como se o diâmetro do telescópio fosse determinado pelo espaço entre os receptores mais afastados, embora não exista uma superfície física preenchendo toda essa área. Relógios atômicos precisarão marcar a chegada dos sinais com precisão de nanossegundos para impedir que pequenos atrasos destruam os detalhes procurados pelos astrônomos.

O que significa o quilômetro quadrado do telescópio SKA?

O nome Square Kilometre Array nasceu de uma ambição definida nas primeiras décadas do projeto: criar um observatório com área coletora próxima de 1 quilômetro quadrado, equivalente a 1 milhão de metros quadrados. Uma área tão extensa aumentaria a sensibilidade necessária para detectar o hidrogênio distante e reconstruir fases do universo que os telescópios atuais ainda observam com enorme dificuldade.

Parte do projeto Área coletora prevista
Visão original Próxima de 1 milhão de m²
SKA-Low Aproximadamente 419 mil m²
SKA-Mid Aproximadamente 33 mil m²

A primeira fase atualmente em construção não alcançará sozinha o milhão de metros quadrados sugerido pelo nome. As áreas coletoras do SKA-Low e do SKA-Mid somam aproximadamente 452 mil metros quadrados. O termo foi preservado porque representa a visão de longo prazo, que prevê ampliar o número de antenas, a sensibilidade e as distâncias alcançadas pelo observatório em futuras etapas.

Como a rede poderá ouvir o nascimento das primeiras estrelas?

Durante seus primeiros milhões de anos, o universo atravessou um período sem estrelas, conhecido como idade das trevas cósmica. Quando as primeiras estrelas e galáxias começaram a surgir, sua radiação alterou o hidrogênio espalhado pelo espaço. O SKA-Low tentará mapear o sinal de rádio desse hidrogênio, originalmente emitido no comprimento de onda de 21 centímetros e alongado pela expansão do universo.

Essas observações poderão revelar quando as primeiras estrelas se acenderam, como as regiões iluminadas cresceram e de que maneira nasceram as primeiras galáxias. O observatório também investigará pulsares, rajadas rápidas de rádio, buracos negros, campos magnéticos cósmicos, ondas gravitacionais e moléculas complexas relacionadas à formação de sistemas planetários.

Os grandes pratos parabólicos na África do Sul captam frequências mais altas do universo distante
Os grandes pratos parabólicos na África do Sul captam frequências mais altas do universo distante

Por que os computadores serão tão importantes quanto as antenas?

Os dois conjuntos deverão enviar, em média, cerca de 8 terabits de informações por segundo para seus processadores centrais. Os dados seguirão por centenas de quilômetros de fibra óptica até supercomputadores instalados em Perth e na Cidade do Cabo. Cada sistema de processamento científico terá capacidade estimada em aproximadamente 135 petaflops.

O volume arquivado poderá ultrapassar 700 petabytes por ano, quantidade comparada ao armazenamento de cerca de 1,5 milhão de notebooks. A construção começou oficialmente em 2021 e avança em etapas: as primeiras antenas australianas foram instaladas em 2024, o primeiro conjunto com 1.024 unidades foi validado em 2025 e o SKA-Mid realizou uma de suas primeiras combinações de pratos no início de 2026. Antes de ouvir plenamente as primeiras eras do universo, o projeto precisa provar que milhares de peças, cabos, relógios e programas conseguem agir como um único instrumento.





Fonte: O Antagonista

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