De volta ao Brasil, e também à estrada: depois de percorrer mais de 35 mil quilômetros, revirar 4 terabytes de documentos, levar incontáveis “nãos” e falar com mais de 50 fontes, Natalia parte para uma última entrevista no interior de São Paulo, ao lado de um veterano jornalistas investigativo. Será que a resposta estava mais perto do que pensávamos?
Ouça agora o episódio 6!
Confidencial: as digitais do FBI na Lava Jato
Episódio 6: My way
Confira abaixo o roteiro do episódio na íntegra
EPISÓDIO 06: MY WAY
[Ricardo Terto]
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Trilha sonora investigativa
[Natalia Viana]
Depois de viajar por quatro estados no Brasil e três nos EUA, percorrendo mais de 35 mil quilômetros, revirar 4 terabytes de documentos, vasculhar arquivos pessoais, ler inquéritos policiais, livros, artigos e reportagens, levar incontáveis “nãos” e falar com mais de 50 fontes, entre policiais federais, procuradores, advogados, sociólogos, jornalistas, investigados e até ex-agentes do FBI, chegamos à última fase desta investigação com uma nova pista que, para nossa surpresa, estava mais próxima do que imaginávamos.
[Stela Diogo]
Lá vamos nós.
[Natalia Viana]
Pega sua malinha que a gente vai pegar o Rubens no aeroporto de Viracopos, vindo direto de Brasília. Depois vamos até Bauru, no interior de São Paulo, para conversar com a nossa última fonte.
[Stela Diogo]
Que promete!
[Natalia Viana]
Vai ser a primeira pessoa ali, que conhece muito o começo da Lava Jato, que vai falar em on né.
[Stela Diogo]
Está com muitas expectativas?
[Natalia Viana]
Muitas! (Risadas)
Vinheta de abertura da série
[Natalia Viana]
Eu sou Natalia Viana e quem me acompanha nessa viagem é Stela Diogo. No último episódio de “Confidencial: as digitais do FBI na Lava Jato” vamos investigar o que o FBI faz no Brasil hoje e tentar chegar a uma conclusão sobre a pergunta central desta série: Os Estados Unidos estão por trás da Lava Jato ou isso é só uma teoria da conspiração?
Episódio 6: My Way.
Efeito sonoro: ambiência interior do carro
Uma investigação é uma viagem, mas é uma viagem assim meio que sem destino, sabe? Você não sabe exatamente onde você vai chegar.
Já atravessei uma longa jornada, junto às minhas parceiras de investigação Alice Maciel e Amanda Audi.
Efeito sonoro: pausa + trilha investigativa
Eu vou em direção ao aeroporto de Viracopos, em Campinas, para pegar Rubens Valente, um dos jornalistas investigativos mais conhecidos do Brasil, autor de furos históricos, como aquele em que o ex-ministro Romero Jucá disse que era preciso “estancar a sangria” da Lava Jato em um acordão nacional “com o Supremo, com tudo”, lembra? Pois é, foi ele quem por acaso nos trouxe essa nova pista valiosa:
Efeito sonoro: ambiência interior do carro
Eu estava lá na redação em Brasília, da Agência Pública, conversando com a Alice sobre como é que a gente poderia falar com policiais federais, e aí o Rubens contou essa história, disse que o Oslain, que era o chefe da divisão de organizações criminais da Polícia Federal na época, da Lava Jato falou pra ele assim, “olha, a Lava Jato começou aqui nessa minha sala”, ele tava na sala do Oslain “Um dia eu te conto essa história”.
[Stela Diogo]
Chegou. Vai chegar o dia.
[Natalia Viana]
E olha, isso faz muitos anos, você vê como é que é a relação de um jornalista com a fonte.
Por causa dos anos de trabalho jornalístico, cobrindo operações da Polícia Federal, Rubens foi criando dentro da PF relações de confiança. Uma dessas pessoas de confiança é Oslain Santana, ex-delegado da PF, e que era chefe da Diretoria de Investigação e Combate ao Crime Organizado, a DICOR, durante o início da Lava Jato. Hoje, Oslain mora em um condomínio na região de Bauru, no interior de São Paulo, e só topou conversar com a gente, porque já tinha esse contato prévio com Rubens.
Efeito sonoro: ambiência interior do carro
E aí, Rubens? Tudo bom?
[Stela Diogo]
Olha ele aí!
[Rubens Valente]
Deu certo?
[Natalia Viana]
Deu certo!
[Rubens Valente]
Não quero vir aqui, Stela? Vem aqui! Cabe aqui não?
[Natalia Viana]
Cabe!
Recebemos Rubens no aeroporto, vindo diretamente de Brasília para nos ajudar nessa missão. Com uma longa estrada pela frente, aproveitei pra entender melhor quem é essa nova fonte.
Efeito sonoro: ambiência carro em movimento
[Natalia Viana]
Me conta quem é Oslain! Me conta tudo, por que que nós estamos aqui dirigindo quilômetros e quilômetros para falar com Oslain?
[Rubens Valente]
Como eu te contei, eu sempre procurava conhecer essas figuras da polícia, sempre procurei, até hoje procuro. Aquelas figuras que menos aparecem no noticiário geralmente são as mais interessantes, são as que estão ali fazendo o seu trabalho calados, silenciosos, que você vê que não buscam holofotes. E eu me lembro que conversei algumas vezes com ele e eu percebi que ele teve um papel de testemunha, de observador da origem da Lava Jato que nunca tinha sido contado. Não foi contado até hoje.
[Natalia Viana]
Ele tinha te prometido faz muitos anos te contar como nasceu a Lava Jato, foi isso?
[Rubens Valente]
Um dia ele me contou que as salas lá dele em Brasília tiveram um papel importante nisso. Então, na época eu pedi para ele explicar melhor, ele nunca quis explicar e logo ele se aposentou em 2016, me parece. E quando eu tentei falar com ele, ele já tinha mudado, foi embora para Bauru, para onde a gente está indo agora. E acabou que ficou pelo ar, e eu nunca deixei de pensar nisso.
[Natalia Viana]
Tá aí, a confirmação que todo jornalista investigativo é uma pessoa obcecada. Anos mais tarde, estamos viajando pra tirar essa história a limpo. Chegamos à noite em Bauru e na manhã seguinte, cedinho, fomos ao condomínio onde hoje Oslain Santana, delegado aposentado, vive tranquilamente, bem longe das investigações perigosas que fizeram parte da sua história profissional. Para quem não sabe, além de corrupção, a Polícia Federal investiga crimes federais, como tráfico na fronteira, grilagem de terra e fraudes contra o patrimônio público.
Efeito sonoro: ambiência carro
[Natalia Viana]
Olá, tudo bom? A gente vai na rua Oslain é o morador, está esperando a gente. Nunca viemos.
Por engano chegamos pelo portão de serviços que tinha uma fila enorme de carros, fizemos um cadastro, tiramos foto para registro de segurança, enfim, foi uma burocracia danada até conseguirmos liberação para entrar.
[Stela Diogo]
Que custo.
[Natalia Viana]
Menina, que suor, né? Pra entrar.
[Stela Diogo]
Ele tá bem seguro aí dentro.
[Natalia Viana]
Assim realmente ninguém vai encontrar o Oslain.
Já dentro do condomínio, demos algumas voltas pelas ruas bem planejadas, em cujos lados se erguem casas amplas, com jardins na frente e muitas árvores. Finalmente chegamos à casa de Oslain Santana.
[Rubens Valente]
Doutor Oslain! (cumprimentos abafados) Não pode cometer esse erro, a gente entrou pela portaria errada.
[Natalia Viana]
A gente entrou pela portaria de serviços.
[Oslain Santana]
Bom dia
[Natalia Viana]
Tudo bom, doutor? Sou Natalia.
[Rubens Valente]
Natalia Viana, Stela Diogo.
[Oslain Santana]
Tudo bem?
[Stela Diogo]
Tudo bem? Prazer.
[Natalia Viana]
A entrevista aconteceu na varanda, um espaço aberto, bem arejado, com vista para o jardim. Ao fundo é possível ouvir o som das cigarras e pássaros, muitos pássaros. Nos sentamos próximos a uma mesa quadrada, e em outra mesa ali do lado, ele tinha empilhado dezenas de documentos, segundo ele, para provar tudo o que ia dizer. Mas o som dos pássaros não era o único por ali. Quando entramos, tocava uma música bem alta, Para não atrapalhar a gravação pedimos para desligarem a música e recebemos uma resposta no mínimo inusitada: “nós não desligamos o som”, disse a esposa de Oslain. Eu insisti:
[Oslain Santana]
Porque por mais que na unidade na unidade
[Natalia Viana]
Acho que desligar é melhor, né.
[Rubens Valente]
Esse microfone é uma desgraça, ele pega até o negócio
[Oslain Santana]
Mas a ideia é usar o tempo todo no gabinete para isso, para dificultar a escuta.
[Natalia Viana]
Para dificultar. (Risos).
[Oslain Santana]
Sabia que era isso, estou brincando, mas é sério.
[Natalia Viana]
Mas a cigarra serve ao mesmo propósito.
[Rubens Valente]
Você pegou essa mania então, e até hoje?
[Oslain Santana]
Sempre, sempre, sempre, tudo gabinete, estou conversando, sempre ligo o som, pelo menos para dificultar, não que vá impedir. Você pode
[Natalia Viana]
É assim que a família se protege de possíveis escutas clandestinas, um hábito herdado por Oslain dos tempos de delegado, enquanto se mudavam de estado em estado para servir à Polícia Federal. E a história dele dentro da PF é longa, ele ingressou na carreira em 1994 e foi contemporâneo de mudanças drásticas dentro da instituição.
[Oslain Santana]
Houve uma reestruturação na Polícia Federal, criaram as delegacias regionais de combate ao crime organizado, DICOR, isso em 2004. Em 2011, unificou tudo. Veio toda uma estrutura, toda a investigação da Polícia Federal ficou numa diretoria só.
[Natalia Viana]
Nessa época, durante o mandato da então presidenta Dilma Rousseff, ele assumiu a diretoria do departamento. E foi a partir dessa reorganização interna da polícia que uma investigação como a Lava Jato se tornou possível.
O Rubens me contou que uma vez vocês estavam na sua sala, na DICOR e falou assim, “olha, começou aqui a Lava Jato”.
[Oslain Santana]
Começou aqui.
Trilha sonora de mistério
[Natalia Viana]
A mudança da PF tinha alguns objetivos claros, um deles era priorizar grandes investigações de desvios de recursos públicos. E foi assim que uma delegacia especializada em crimes financeiros foi reestruturada em Curitiba. E adivinha quem foram os delegados que foram trabalhar lá? Márcio Anselmo e Erika Marena, duas figuras diretamente relacionadas ao início da Lava Jato e que tentamos entrevistar para essa série, sem sucesso. Mas essa é a parte operacional, já os primeiros alvos da investigação que se tornaria a Lava Jato, você sabe quem são: os doleiros.
[Oslain Santana]
O trabalho de doleiro eles mencionaram pra mim, mas a Erika, particularmente, já sabia desse trabalho. Por que ela sabia desse trabalho? Porque ela ajudou na Miqueias.
[Natalia Viana]
A Operação Miqueias, deflagrada pela Polícia Federal em 2013, investigou um esquema de fraudes em fundos de pensão municipais. Os fundos de pensão são como uma previdência que garante benefícios, no caso, aos servidores públicos das prefeituras. Se você acha que corrupção federal é um problema é porque os rombos municipais praticamente não são investigados. Mas mesmo aqui, quem estava no meio do esquemão eram os doleiros.
[Oslain Santana]
Então, como a Erika foi chamada, ela é especializada nessa área. Eu não sei se ela estava na época lotada, não estava nem no Paraná, acho que estava na época no Amazonas. Foi chamada para ajudar.
[Rubens Valente]
Em Brasília?
[Oslain Santana]
Em Brasília. Então, ela viu que eles estavam operando. E também pintaram ele, o doleiro de Brasília, conversando, mas isso era áudio, né?
[Natalia Viana]
Com o Youssef?
[Oslain Santana]
Conversando com o Youssef.
[Natalia Viana]
O Habib Chater conversando com o Youssef? Caindo em grampo.
Você deve se lembrar que no segundo episódio dessa série investigamos a origem da Lava Jato a partir de algumas mensagens que guardei por anos e que estavam em meio aos terabytes de informações vazadas por um hacker. Nesta mensagem, Deltan tenta explicar a Vladimir Aras a origem da Lava Jato.
Sinal sonoro para leitura de mensagem
[Ricardo Terto]
03 de julho de 2018. Vladimir Aras: Delta, quando foi instaurado o inquérito mãe da Lava Jato? Dia, mês e ano? Deltan: Olha, essa história é confusa. Tem um IPL lá de 2005 de que eu cuidava sobre Janene, mas foi arquivado em 2008 e em seguida juntada outra notícia crime sobre outro fato, que levou a linha de investigação que envolveu o Chater e, em 2013, Erika teve info de intelig. de que Chater continuava operando e aí foi feita interceptação.
[Natalia Viana]
Estou diante de uma pessoa que finalmente pode explicar o que significa essa tal “intelig”. Eu tenho uma pergunta bem específica. Tem um dos diálogos ali da Vaza Jato que diz o seguinte, que é o Deltan explicando “a Lava Jato começou quando a Erika teve uma informação de intelig. de que Chatter continuava operando.”
[Oslain Santana]
A informação de inteligência dela, ela estava em Brasília, na Operação Miqueias, acompanhando o monitoramento, ela sabia que o Chater estava operando. Essa é a informação de inteligência da Erika. Então, confere.
[Natalia Viana]
É difícil explicar pra quem não é jornalista como é bom chegar a uma resposta depois de uma longa apuração. Segundo Oslain, a “intelig” era uma informação interna da PF, sobre o fato que Carlos Habib Chater estava operando lavagem de dinheiro, assim como Youssef. Esse teria sido o começo da Lava Jato. Ou seja: por mais que os alvos iniciais – doleiros – possivelmente estivessem sob a mira do governo americano, não temos elementos para dizer que os Estados Unidos estavam envolvidos desde o início da Lava Jato. Fatos são fatos. E eu adoro fatos.
Agora, se essa informação, essa “intelig”, veio de Brasília, como a investigação foi parar nas mãos dos delegados de Curitiba?
[Oslain Santana]
Eles foram pedir apoio.
[Natalia Viana]
Eles queriam focar no Youssef?
[Oslain Santana]
O Youssef é de lá.
[Natalia Viana]
E o que eles tinham ali?
[Oslain Santana]
Eles só tinham os casos. Ninguém sabia de Petrobras, cara. Isso aí que o pessoal fala. O pessoal fala, vê como é, Petrobras, americano. Não tem nada a ver.
[Natalia Viana]
Os doleiros apareceram numa investigação em curso em Brasília, os delegados de Curitiba deram continuidade por lá, argumentando que Youssef é natural da região de Londrina e já era investigado em alguns outros inquéritos anteriores. Porém, quando ocorreu a Operação Lava Jato, Youssef já não morava mais no Paraná, mas em São Paulo. E aí, vamos lembrar, como bem disse o Deltan, o que eles fizeram foi retomar um inquérito mais antigo que estava parado e teve origem no Mensalão, sobre o deputado José Mohamed Janene – ele, a essa altura já tinha falecido havia três anos.
[Oslain Santana]
A operação até que estranhei, que foi muito rápida. Eles pediram apoio em agosto, a operação estava madura em dezembro.
[Natalia Viana]
Estava madura em dezembro e saiu em março.
[Oslain Santana]
E tem uma coisa que estranhou nela, como são as coisas, o cara estava certo. Na hora, de todo o monitoramento telemático e telefônico é acompanhado por um membro do Ministério Público. Na hora de dar a autorização, o membro do Ministério Público que acompanhava, pale pas, estava concordando, não concordou. Ele falou o que é o correto, “olha, não vislumbro competência da vara criminal de Curitiba.” Ele falou de forma correta, não está errado o que ele falou.
Trilha sonora clima de suspense
[Natalia Viana]
“O cara estava certo”. Guarde essa frase. Quem era esse cara? O procurador federal, José Soares Frisch, o primeiro membro do MPF responsável por tocar o caso da Lava Jato. Depois de meses de escuta telefônica, quando se preparava a operação inicial, ele pediu para o caso ser enviado a Brasília, porque a vara de Curitiba não tinha jurisdição, já que nenhum crime ocorreu naquele estado. A sinceridade de Oslain demonstra que, mesmo dentro da PF, o comecinho da Lava Jato traz questionamentos.
[Oslain Santana]
Todo mundo desceu a lenha no membro do Ministério Público, “esse cara é isso aquilo aquilo aquilo” e teve uma reunião com o doutor Moro, chamou alguém do Ministério Público, que é aí que veio, salvo engano, o Deltan.
[Natalia Viana]
O Deltan é. Exatamente. Substituindo.
[Oslain Santana]
Mas o colega, o membro, ele falou por que o Youssef não estava mais baseado.
[Natalia Viana]
Ele estava morando em São Paulo.
[Oslain Santana]
São Paulo, todas as operações dele estavam em São Paulo. Não tinha nada ali, não tinha nada no Paraná.
[Natalia Viana]
Os acusados não viviam no Paraná, os crimes não foram cometidos no Paraná, as operações ilícitas não estavam no Paraná então, por que o caso continuava ali? Esse foi o questionamento do procurador natural da Lava Jato que saiu do caso e foi substituído por ninguém menos que Deltan Dallagnol. Eis o que escreveu José Soares em parecer datado de janeiro de 2014:
Efeito sonoro: alerta para leitura de mensagem
“Da investigação se infere que, se há crimes sendo praticados pelas pessoas físicas acima arroladas, esses crimes se estão consumando no Distrito Federal. Não há notícia de qualquer crime praticado especificamente no Paraná pelo suposto grupo criminoso comandado por Carlos Habib Chater.”
Como você pode imaginar, tentamos falar com José Soares de todas as formas possíveis, mas ele respondeu que tudo o que tem a dizer já está nos autos. Nada mais a declarar.
[Oslain Santana]
Mas sabe que não estranhei na época? Porque teve outros casos, o que deveria ter sido feito? A investigação pode ser feita desde que tenha a autorização judicial não tem ilegalidade alguma. A competência é do juiz, e não a investigação.
[Natalia Viana]
Entendi. Ou seja, o que deveria ter sido feito? Faz a operação, mas na hora depois distribui para juízes de todo o país.
[Oslain Santana]
São Paulo! Pega todo o material, declina a competência antes de julgar. Então, a gente não achou nada de estranho, até porque é a coisa mais difícil, estou falando aqui, é você conseguir gente para trabalhar, policial para trabalhar. A operação demanda muito tempo.
[Natalia Viana]
Mas o que eu quero saber é se houve ali uma possível influência americana. Oslain, que antes de ser policial federal era militar, tem lá sua visão.
Existe uma teoria de que os Estados Unidos se beneficiaram com a Operação Lava Jato ou estariam por trás da Operação Lava Jato. O que você acha disso?
[Oslain Santana]
Aproveitamento do êxito. Aproveitamento do êxito é um termo militar, né? É quando você faz, você ataca uma posição, você ganha a posição, aí você vê a chance que você tem a chance de avançar e ir embora. Foi isso. A operação não tem nada a ver com eles, mas depois, olha, vão aproveitar. Falar que tem influência no começo da operação? Não. Tem outra situação que o pessoal comenta, dos cursos dos policiais. Cursos sempre teve. Você tem curso pelos alemães, tem curso pelos ingleses, e teve curso para eles também.
[Natalia Viana]
O FBI oferece rotineiramente cursos para policiais brasileiros. Até nossas conhecidas agentes, Leslie Backschies e June Drake deram palestras e cursos para forças policiais brasileiras. Mas qual o problema disso? No terceiro episódio dessa série, eu contei sobre uma conversa em off com outra fonte da Polícia Federal, uma pessoa que também ocupou posição de liderança e lidou diretamente com casos envolvendo cooperação internacional entre polícias de diferentes países. Essa pessoa me contou um pouquinho sobre esses cursos.
Trilha sonora clima interferência
Nesse relato, a fonte foi logo dizendo que os americanos eram muito pretensiosos e, se deixasse, mandavam nos agentes brasileiros. Disse também que eles têm liberdade de visitar qualquer delegacia aqui no Brasil. Trata-se de um jogo de cooptação em que às vezes pode se oferecer equipamentos, apoio, ou até dinheiro. Essa pessoa confidenciou que sempre ficava atenta às possíveis vulnerabilidades de policiais alocados em cada operação, tanto para evitar cooptação por agentes estrangeiros quanto por organizações criminosas.
[Natalia Viana]
Por exemplo, se o policial mantém em segredo sua sexualidade, ou tem um caso extraconjugal, alguém pode chantageá-lo, o que se torna uma fragilidade. Essa fonte, inclusive, chegou a encomendar um dossiê sobre si mesmo feito pela PF para checar se teria algo com que se preocupar. Não é à toa que todos os ex-delegados com quem conversamos têm um certo nível de paranoia. Outra coisa que essa fonte me contou é que se tem uma coisa que os americanos gostam de fazer é sugerir cursos. Ou seja, nos bastidores existe uma tentativa constante de sedução e cooptação de policiais brasileiros. Essa pessoa me contou, inclusive, que já descobriu visitas de adidos civis americanos a cidades do interior, mas que na verdade eles eram policiais disfarçados, algo que ainda vamos entender melhor daqui a pouco.
Fim da trilha
Foi aí que a Alice teve a brilhante ideia de pedir, via Lei de Acesso à Informação, os telegramas diplomáticos do Itamaraty, com foco na Lava Jato, para tentar entender de maneira objetiva, com provas documentais, o que de fato as agências do governo americano faziam por aqui durante a investigação. Com os documentos em mãos, voltamos a nos encontrar no estúdio da Agência Pública, em São Paulo.
[Alice Maciel]
Vai terminar com a pergunta?
[Natalia Viana]
Vai terminar com a gente discutindo e chegando a alguma solução amanhã.
[Alice Maciel]
A gente tem que concluir?
[Natalia Viana]
Tem, a gente tem que concluir.
[Alice Maciel]
A gente pode concluir que não dá para concluir?
[Natalia Viana]
Pode, mas a gente pode concluir o que a gente aprendeu, o que é fato e o que
[Alice Maciel]
É fake.
[Amanda Audi]
Fato ou Fake. (Risos)
E uma das coisas que não sabíamos lá no início era o teor desses documentos diplomáticos.
[Alice Maciel]
E vieram informações muito interessantes, que são informações de relatórios dos Estados Unidos, deixa eu pegar aqui.
[Natalia Viana]
Alice conseguiu o ouro aí. (Risos)
[Alice Maciel]
E aí esse relatório tem de 2014, 2016 e 2017. E é muito interessante porque eles falam nesses relatórios sobre as relações de cooperação com o Brasil. Eles falam também sobre os investimentos deles para fazer esse intercâmbio entre Estados Unidos, né, que eles, esses cursos que eles davam e tal. Aí no relatório de 2016 fala que, o seguinte, “o memorando de entendimento assinado em 2008, que tem possibilitado o intercâmbio de policiais em diversos programas”, e aí fala que em 2015 os Estados Unidos teriam oferecido ao Brasil 25 cursos para mais de mil agentes da lei.
[Natalia Viana]
Nossa!
Alice:
Em 2016, eles fizeram 19 cursos para mais de mil agentes também, em temas que vão desde lavagem de dinheiro a policiamento comunitário.
[Natalia Viana]
O tema já estava no nosso radar, eu já tinha perguntado ao Oslain:
Me deu a impressão que existe uma tentativa de cooptação ou influência que é constante por parte, e talvez não só dos americanos. Você tinha essa impressão? Ou seja, quem está ali no topo precisa prestar atenção nesse tipo de influência ou tentativa de relacionamento?
[Oslain Santana]
Enquanto eu fui diretor eu acho que a cooptação mais é você perguntar para alguns agentes se eles preferem fazer uma operação em conjunto com a polícia italiana ou com a polícia americana, em operação em conjunto com a polícia civil do Mato Grosso, ele vai falar o quê? É o charme.
[Natalia Viana]
O charme dos americanos.
[Oslain Santana]
Não, não dos americanos. O charme de você fazer uma cooperação internacional.
[Natalia Viana]
É uma sedução cultural.
Efeito sonoro: trilha
Sedução cultural. É inegável o fascínio que os Estados Unidos exercem sobre os brasileiros. Afinal, somos bombardeados por filmes e séries sobre agentes do FBI, então, na nossa cabeça existe um certo glamour em torno desses personagens. E isso não é acidental, a imagem do FBI como grande força heroica foi construída ainda lá na década de 30 do século passado, com a ajuda de Hollywood. Eu não estou inventando não, a informação vem do livro Inimigos: uma história do FBI, do jornalista Tim Weiner. É o chamado “soft power”, em linguagem geopolítica. Esse simbolismo é duradouro, e eu percebi ao longo dessa série que ninguém está imune a esse fascínio – nem eu mesma. Por isso fiquei por anos obcecada com a história da agente do FBI meio brasileira: a Leslie Rodrigues Backschies, ou ansiosa antes de encontrar June Drake naquela cidadezinha perdida no meio da Flórida.
Agora, uma maneira bem eficiente de aumentar essa influência cultural é através de cursos, palestras ou convites VIP para estudar nos Estados Unidos. Resolvi voltar e ouvir uma das primeiras entrevistas desta série, com o veterano jornalista Bob Fernandes, que expôs a influência da CIA e do FBI no final dos anos 1990 e início dos anos 2000.
Efeito sonoro: som de fita rebobinando
[Natalia Viana]
Qual é o problema desses cursos? Ou seja, esses cursos que eles oferecem para a polícia?
[Bob Fernandes]
Cooptação. Claro, você pode ir lá e não ser cooptado, não necessariamente. Você pode assistir uma final da Champions League e não ser cooptado. Agora, é muito difícil, cara, um jovem agente ou um jovem procurador, um jovem que vai, vai para Nova York, vai jantar, você sabe lá o que essa pessoa fez, onde, como, com quem, dentro de território americano? Entende? A cooptação se dá assim. Começa com essa conversinha, de repente o cara vai visitar a CIA e o FBI quando é ministro da Justiça.
Efeito sonoro: pausa
[Natalia Viana]
Já falamos durante a investigação sobre a aproximação de Moro com o FBI. Enquanto era ministro, ele fez várias reuniões, eventos e até algumas visitas à sede do FBI em Washington. O próprio Moro, ainda como ministro da Justiça, demonstrou como era fascinado por essa imagem hollywoodiana. Em abril de 2019, ele usou o Twitter para divulgar algumas medidas de seu projeto de lei anti crime, em uma das mensagens sobre o assunto, escreveu:
Trilha sonora clima “leve”
“Já assistiu aqueles filmes norte-americanos com agentes policiais disfarçados infiltrando-se em gangues de criminosos, traficantes ou corruptos? Como Donnie Brasco ou The Infiltrator e que retratam casos reais”
Fim da trilha sonora
É no mínimo cafona um ministro de Estado elogiar filmes de ficção americanos, né? Mas vou deixar passar porque eu mesma já confessei que também sou alvo do “soft power” americano. Agora fora de brincadeira, essa influência cultural é uma arma aproveitada de maneira estratégica pelo governo americano. E isso pode ser comprovado nos documentos trocados pela embaixada brasileira, que obtivemos graças à Lei de Acesso à Informação. Com a palavra, Alice:
[Alice Maciel]
Tem um ponto sobre a cooperação muito interessante, que ele fala o seguinte: “O documento faz referência positiva à Operação Lava Jato, ressaltando ter ela revelado complexa rede de corrupção, de lavagem de dinheiro e de evasão fiscal que faz menção aos trabalhos do Brasil, do departamento do Estado, em conjunto com os Estados Unidos, na análise, identificação e investigação de empresas e indivíduos envolvidos em atividades de lavagem de dinheiro em ambos os países e que resultam em milhões de dólares não arrecadados pelos Estados Unidos.”
[Natalia Viana]
O interessante desses documentos é que percebemos de uma maneira clara algo que deveria ser óbvio, os países agem sempre por interesse próprio. Se existe uma ajuda, seja na forma de cursos, apoio institucional ou qualquer outro meio, é porque isso representa uma vantagem ou gera um ganho colateral. Isso foi algo que percebi com clareza durante minha viagem para os Estados Unidos: existe uma preocupação dos agentes americanos em não revelar nada que possa contrariar os interesses nacionais. Até porque quem fala demais por lá sofre as consequências. Aqui funciona ao contrário: por vezes, parecia que os procuradores brasileiros transitavam entre a cooperação e o deslumbramento.
Efeito sonoro: som de fita rebobinando
[Nestor Cerveró]
Os procuradores que fizeram parte da Lava Jato, eles ficaram muito entusiastas com a preocupação americana e usaram de certa forma essa influência, ou uma, não sei até que ponto houve uma orientação americana, orientação na parte de investigação.
[Natalia Viana]
Lembram da entrevista de Nestor Cerveró, ex-diretor da Petrobras? Ele foi enfático em dizer que foi pressionado pelos procuradores da Força Tarefa de Curitiba para colaborar com os americanos. Mas ele não foi o único a fazer essa afirmação:
[Alice Maciel]
É isso, eu ouvi do Cerveró, mas também de uma pessoa que atuou na defesa de vários investigados da Lava Jato e que também falou a mesma coisa. A outra fonte corrobora de que o Ministério Público no Brasil intermediou para que os investigados fizessem essa colaboração com os americanos, sabe? Esse deslumbramento, eles acabaram atuando nesse lugar de intermediador.
[Natalia Viana]
A fonte que Alice ouviu em off é uma pessoa que atuou na defesa de vários investigados da Lava Jato e que também teve a mesma percepção. Outra informação vinda dessa fonte é que muitas vezes os procuradores americanos corriam para fechar acordo com pessoas investigadas no Brasil antes dos brasileiros, conseguindo assim vantagem na obtenção de informações e atravessando os amiguinhos. Mas, se era só mais uma investigação da Polícia Federal sobre doleiros como a Lava Jato chegou a abalar as estruturas da República brasileira? Eu perguntei isso para o Oslain.
[Oslain Santana]
Sinceramente, foi politizada. Eu não sei se é por vaidade deles, pelos, vai ver que é vaidade.
[Natalia Viana]
Ter mantido tudo naquela vara foi complicado, foi prejudicial?
[Oslain Santana]
Acho suspeito.
[Natalia Viana]
Suspeito?
[Oslain Santana]
Eu acho suspeito.
[Natalia Viana]
Acho suspeito pior que prejudicial.
[Oslain Santana]
Não, você tem que explicar o porquê. Porque você quer trazer tudo para você. Não estou falando, não estou criticando. Eu acho estranho concentrar tudo ali. Será que pode ser boa ou má intenção? Eu só acho estranho levar tudo para lá. Talvez vaidade. Vaidade, né? Ou não.
[Natalia Viana]
Por que, né, agora isso é uma dúvida, mas vaidade é o quê? Só pra eu entender qual que é a suspeita.
[Oslain Santana]
Desvio. Vaidade é o desvio. Não dá pra descartar. Depois eu posso falar em off aqui. A gente aprende de forma mais amarga na instituição. Eu tive amigos que Amigo, amigo envolvido em corrupção.
Efeito sonoro: trilha sonora
[Ricardo Terto]
Você está ouvindo uma áudio série, Original Audible. Para conhecer mais histórias surpreendentes e imersivas como está, acesse o site audible.com.br. Faça sua conta e teste grátis por 30 dias ou por 3 meses, se você for membro Amazon Prime.
[Natalia Viana]
Talvez um dos elementos que mais levante suspeitas na condução da Lava Jato, especificamente na cooperação com os americanos seja a negociação da divisão da multa da Petrobras.
[material de arquivo]
“A Petrobras fechou um acordo bilionário com a Justiça americana para encerrar as investigações sobre corrupção na empresa. O acordo para encerrar as investigações custou R$853 milhões de dólares, o que, incluindo impostos, equivale a R$3,6 bilhões de reais para a empresa. A investigação tinha sido aberta depois que a operação Lava Jato revelou a corrupção na Petrobras.”
O valor da multa só veio oficialmente à tona em 2018, mas desde o comecinho das tratativas com os investigadores americanos em 2015, já era tema quente entre os procuradores brasileiros, segundo mensagens do Telegram, vazadas. Lembram daquela visita à Curitiba de uma enorme delegação de americanos em 2015? Pois durante aquela conversa já se falava em dividir a multa que viria a ser o resultado da investigação americana e que, na teoria, nem havia começado. No dia 8 de outubro de 2015, quando os americanos ainda estavam aqui, Deltan Dallagnol, escreveu no Telegram para seus colegas do MPF:
Efeito sonoro: alerta de mensagem
[Ricardo Terto]
“Caros, hoje tem reunião com americanos 9.30 sobre empresas estrangeiras, inclusive Petrobras. Ontem falámos com eles sobre assets sharing da multa”.
[Natalia Viana]
“Assets Sharing” significa a partilha de bens recuperados no exterior. Neste caso, porém, eles estavam tratando da divisão da possível multa proveniente dos cofres da Petrobras. Como já ouvimos, o valor era importante para os americanos. Vamos voltar à entrevista de Lance Jasper, ex -procurador da Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos, na voz do ator Aury Porto.
Efeito sonoro: fita rebobinando
[Dublagem Lance Jasper]
Foi um grande caso. Naquele ano, o caso da Petrobras representou mais de 40% do que a SEC conseguiu. Então, foi um dos maiores casos que a SEC já havia conduzido até aquele momento. E isso fez uma grande diferença na maneira como a SEC destacou seu sucesso naquele ano. Assim, em um ano típico, a SEC arrecada três, quatro, cinco bilhões de dólares. Então, por ser mais de 40% disso, é realmente muito dinheiro.
[Natalia Viana]
A negociação do retorno de parte dessa multa ao Brasil foi suada, e tão longa quanto a própria investigação americana. Dois anos depois, procuradores americanos e brasileiros chegaram a um acordo. O que ficou meio turvo era a forma como esse dinheiro retornaria aos cofres do Estado brasileiro. A Alice investigou essa história.
[Alice Maciel]
Mas o que a gente descobriu foi que, é desde 2015, que eles já discutiam como repartir o dinheiro da multa da Petrobras e a destinação do dinheiro, né? E eles já falavam, na época, sobre a destinação para um fundo, uma fundação, eles começaram a discutir, inclusive, as conversas. Eu me lembro que começaram a aparecer quando os americanos estavam, aquela missão dos americanos em Curitiba, e o Deltan chama os outros procuradores falando assim, “olha, a gente começou a conversar, a gente precisa de propostas de como nós vamos fazer com esse dinheiro, a destinação desse dinheiro” e eles falam da criação de um fundo já naquela época, de uma fundação.
[Natalia Viana]
Não sabemos se por sugestão dos americanos ou se por uma ideia vinda dos próprios procuradores, a ideia da Fundação surgiu no desenrolar da negociação. O fato é que, depois da reunião lá em 2015, o Deltan já sugeriu um modelo para receber o valor da multa:
Efeito sonoro: alerta de mensagem
[Ricardo Terto]
08 de outubro de 2015, de Deltan Dallagnol para o grupo de procuradores da Força Tarefa de Curitiba: “Ontem falamos com eles sobre assets sharing da multa e perdimento associados à ação deles contra a Petro, e em parte desses valores há alguma perspectiva positiva. Contudo, precisamos de alguém que se disponha a estudar e bolar um destino desses valores que agradaria a todos, como um fundo, entidades contra a corrupção, o sistema de saúde público, fundo de direitos difusos, fundo penitenciário, órgãos públicos que combatem corrupção, a Transparência Internacional Brasil ou Contas Abertas etc”.
Dias depois, a sugestão é mais explícita. O advogado Patrick Stokes, então chefe do departamento de FCPA – a lei anticorrupção americana – ofereceu três alternativas aos brasileiros, incluindo devolver o dinheiro para “aplicação em programas contra a corrupção”. A solução seria complexa, diz ele, mas arremata. Abre aspas: “Where there is a will , there is a way”. Fecha aspas. Onde tem força de vontade, tem jeito.
[Alice Maciel]
E tem um momento muito interessante também, que tem um momento que eles ficam irritados, os procuradores aqui no Brasil, porque eles falam que os americanos vão ficar com uma parte, insinua que assim, eles vão ficar com dinheiro também, mas eles estão ganhando em cima da nossa investigação.
[Natalia Viana]
No final, após uma boa queda de braço, os procuradores de Curitiba conseguiram um desenho favorável, 20% do valor da multa ficou com os americanos e 80% voltou pro Brasil. Após a assinatura do acordo, que só aconteceu em 2019, o MPF anunciou a criação de uma fundação privada que iria gerir um valor de 2,5 bilhões de reais. Mas a repercussão foi bem diferente do que esperavam os procuradores.
[material de arquivo]
A procuradora-geral da República pediu no início da noite que o Supremo Tribunal Federal anule o acordo da Petrobras com participação da Força Tarefa da Lava Jato em Curitiba. Esse acordo criava uma fundação para gerenciar a multa bilionária imposta pelo governo americano à Petrobras.
[Natalia Viana]
O Supremo suspendeu o acordo e a criação da tal fundação, por desvio de função já que não compete aos membros do MPF determinar a destinação do dinheiro da multa. Segundo o Supremo, qual era o problema? O problema, como viemos a saber também graças aos documentos da Vaza Jato, era o conflito de interesses. O Ministério Público teria assento no conselho da Fundação, justamente num momento em que os procuradores faturavam com palestras e eventos sobre o tema. Deltan chegou a articular em conjunto com o procurador Roberto Pozzobon a criação de uma empresa de palestras, usando as próprias esposas como sócias, já que procuradores não podem por lei se dedicar à atividade empresarial. Essa mensagem ele enviou para a sua esposa:
Efeito sonoro: alerta de mensagem
[Ricardo Terto]
03, de dezembro de 2018, de Deltan Dallagnol para sua esposa: Vamos organizar congressos e eventos e lucrar, ok? É um bom jeito de aproveitar nosso networking e visibilidade.
[Natalia Viana]
Enquanto Deltan planejava, Moro foi lá e fez: sua esposa Rosângela Moro criou uma empresa do mesmo tipo. Essa revelação foi da nossa super repórter, Alice Maciel.
[Amanda Audi]
Ao longo do tempo eles começaram a ter motivações até financeiras, né, de enfim, fazer cursos a partir da experiência que eles tiveram ali. Então, era curso para bancos, para instituições assim. Então, era uma atividade que corria em paralelo com as investigações. Ele estava, enfim, monetizando a fama que ele ganhou.
[Natalia Viana]
É que, assim, não é ilegal, mas é um conflito de interesse claro, né? Uma pessoa que investiga a corrupção começa a dar aula de como se livrar de corrupção.
[Amanda Audi]
Exatamente.
Efeito sonoro: pausa
[Natalia Viana]
Se você chegou até aqui já entendeu que o jogo de interesses é complexo e que nem sempre o interesse público fica em primeiro lugar. Também deve ter percebido que a influência americana durante a Lava Jato aconteceu em várias frentes, algumas mais agressivas, e outras mais sutis, mais “soft”. Soft power, né? E que isso não vem de agora, na verdade essa influência é a continuidade de um processo histórico. Mas e hoje? Não podemos encerrar essa série sem tentar descobrir: o que o FBI faz hoje no Brasil? Encontrei um vídeo do próprio FBI, de 2015, no auge da Lava Jato. Nele, o então chefe do FBI no Brasil, David Brassanini, explica a função da agência fora de sua jurisdição, ou seja, fora do território norte-americano.
[David Brassanini]
My responsibility
[Natalia Viana]
Ele diz que a responsabilidade dele é supervisionar todas as operações, tanto no lado administrativo quanto operacional, para as Américas.
[David Brassanini]
And our responsibility, as everyone knows, is to get out
[Natalia Viana]
E fala ainda que “como todos sabem”, a responsabilidade do FBI é sair a campo, trabalhar com os parceiros locais e permitir que a agência avance em seus “interesses investigativos”.
Tem mais:
[David Brassanini]
Although we may not have jurisdiction in the country that we’re located. Let´s say
[Natalia Viana]
Aqui ele diz que embora o FBI possa não ter jurisdição no país onde seus agentes estão localizados, ele tem a capacidade de estabelecer contato com os colegas e parceiros locais que têm jurisdição, trabalhar com eles, fornecer pistas e dizer, abre aspas:
[David Brassanini]
And say, hey, by the way, we’re looking for this fugitive
[Natalia Viana]
“Ei, estamos procurando por este fugitivo. Você sabe onde ele está? Podemos ajudá-los? Há algo que vocês precisem para encontrá-lo? Seja treinamento ou outras técnicas sofisticadas.” Fecha aspas.
[David Brassanini]
to help find him? Whether it be training, whether it be other sophisticated techniques that we can use.
[Natalia Viana]
Parte das tarefas dos agentes é estabelecer relações com as autoridades locais, ou seja, fazer networking. Parte desse apoio institucional, nas palavras de Brassanini, pode vir em forma de treinamentos ou “outras técnicas sofisticadas”, uma explicação um pouco enrolada.
Trilha sonora clima de interferência
[Natalia Viana]
O FBI possui um escritório formal na Embaixada dos EUA em Brasília, liderado pelo Adido Legal, com agentes em Brasília e também nos consulados. O papel do adido legal é facilitar a cooperação e, claro, a influência sobre as polícias locais. Não podia terminar essa investigação sem tentar visitar o escritório do FBI em Brasília. E foi assim que oficialmente fiz minha última viagem para a capital federal.
Efeito sonoro: chamada para embarque em voo.
[Funcionário Companhia Aérea]
Com destino a Brasília e conexões. Vamos iniciar o seu embarque através dos portões B4.
[Natalia Viana]
Tudo isso apenas para tomar mais um cafezinho
Efeito sonoro: sino de porta.
O porta-voz da embaixada americana é um homem jovem, alto e sorridente, com um português impecável, mas carregado de sotaque. Sentamos numa mesa à sombra, evitando o calor escaldante de Brasília. Ele disse que ama a cafeteria onde nos encontramos que tem mesas amplas do lado de fora, pães de fermentação natural, tudo delicioso e caríssimo. O local fica perto da embaixada americana, que ele logo avisou que estava em reforma e mais do que nunca fechada à visitação. Além de empoeirado, o escritório do FBI, que fica dentro da embaixada, não é aberto a visitas por questão de segurança. Eu ainda argumentei, falando que tamanho silêncio oficial por parte do FBI só gera suspeitas e fomenta teorias da conspiração. Ele me disse que ia tentar, mas que não tinha muito o que fazer: teorias da conspiração são inevitáveis. Meses depois, eu sigo sem resposta.
Trilha sonora dinâmica
Mas claro que não parei por aí, pedi via Lei de Acesso à Informação à Polícia Federal o registro de todos os agentes do FBI que trabalham no Brasil. Para minha surpresa, alguém de dentro da PF respondeu dizendo que não existe um registro dos agentes na Embaixada americana, mas que através de um link do Ministério das Relações Exteriores eu teria acesso aos nomes. Simples assim, mas com um porém, ali só tinha o nome de cerca de 60 americanos listados como adidos civis no ano de 2024. Claro, uma jornalista sabe onde procurar os fantasmas de verões passados. Apelei para o Wayback Machine, uma ferramenta que fotografa e arquiva páginas antigas e até “mortas” da internet. Usando esse recurso, eu consegui levantar cerca de 200 nomes listados como adidos civis do período em que a Lava Jato ainda estava em curso. Naquela reunião, conversamos um pouco sobre isso.
Então, assim, todo mundo que é adido civil, que é uma lista enorme, pode ser tanto de alguma agência do governo americano, que é um civil, ou pode ser gente do FBI, pode ser gente da CIA, pode ser gente da NSA, sei lá, pode ser gente de qualquer uma das agências de inteligência.
[Alice Maciel]
A maioria eu não achei nenhuma informação na internet.
[Natalia Viana]
Então, porque veja só, né? Qualquer ser humano que existe nos últimos 10 anos na Terra tem alguma coisa na internet. Tem um perfil no Facebook, tem um perfil no Instagram, tem foto de colégio. Agora, tem gente aqui que realmente não tem nada.
[Alice Maciel]
Nada, parece quase limpo.
[Amanda Audi]
As pessoas mais subalternas, assim. De fato, não tem quase nada de informação. Nada, nada.
[Natalia Viana]
Mas também existem exceções à regra.
Por outro lado, tem gente que tem muita coisa. Encontrei, primeiro, o atual Legat, né? Que é o legal attaché. O nome dele é Gonzalez. Deixa eu achar ele aqui é Marco Antonio Gonzalez.
Uma pesquisa sobre ele revela uma coisa interessante. Você se lembra que June Drake disse que ficou muito mais fácil cooperar durante o governo Bolsonaro? A coisa parece agora ter mudado de figura, porque em vez de reuniões e eventos no Planalto, Gonzalez claramente tem trabalhado para se aproximar de autoridades regionais, por exemplo, ele esteve presente no Encontro Nacional de Delegados de Polícia do Nordeste e num evento de segurança de autoridades na Cidade Administrativa em Minas Gerais. E tem mais uma curiosidade sobre o Marco Gonzalez.
No perfil do LinkedIn, do atual Adido Legal, que é a pessoa chefe diretor do FBI no Brasil, está escrito “Open for Work“. E ele falou, está escrito muito claramente: procurando trabalho. Aí ele fala que está buscando emprego: vagas em segurança corporativa, gerente de segurança, área privada.
[Amanda Audi]
Olha, os comentários desse post dele aqui, todo mundo tem quatro comentários as pessoas falando assim, “Parabéns pela sua carreira de sucesso no FBI e tudo mais desejo uma boa mudança pra você”; “Que você seja feliz” e tal, então é isso mesmo, cara, ele quer consolidar no Brasil.
[Alice Maciel]
Ah, ele escreve aqui, “Olá a todos, estou me aposentando em breve do FBI e estou procurando uma nova função. Agradeceria seu apoio, agradeço antecipadamente por quaisquer conexões, conselhos, oportunidades que vocês possam ”
[Natalia Viana]
Ele está já planejando a aposentadoria e a ida para o setor privado.
Como ele não vai me dar uma entrevista, segundo o porta-voz da embaixada, a solução é: “fuçar”. Na busca por entender quem são e o que fazem por aqui os agentes do FBI, encontrei diversos anúncios de emprego da Embaixada americana em Brasília, para cargos como “Fraud Investigator”, “Security Investigator”, “Investigative assistant”. Foi aí que esbarrei num anúncio para a posição de investigador, aberto em outubro de 2019, a maior parte do trabalho é dedicado a investigações, especificamente, 70% do tempo. Aqui o teor do anúncio, sem edições:
Efeito sonoro alerta de leitura de mensagem
“O investigador conduz investigações criminais e não criminais, em todo o Brasil. Essas investigações são frequentemente altamente controversas, podem ter implicações sociais e políticas significativas. A posição requer habilidade de interagir em um nível profissional com membros da comunidade de segurança em alto escalão e do nível operacional em temas operacionais e de relacionamento. O funcionário vai ter que viajar de carro, barco, trem ou avião conforme for necessário em apoio às operações do adido legal. Pode ser requerido a fazer viagens de até 30 dias. Viagens para áreas remotas de fronteira e para todas as regiões do Brasil serão obrigatórias. O investigador deve manter bases de dados investigativas e de treinamento sobre os contatos de relacionamento, conferências, tópicos, palestrantes, fotos, e materiais que podem ser facilmente acessados. Além disso, coordena com as agências de segurança do país para identificar e checar candidatos para irem a treinamentos na Academia Nacional do FBI.”
Trilha sonora clima de suspense
[Natalia Viana]
Se existe alguma dúvida sobre o que fazem os agentes do FBI no Brasil, esse anúncio responde. Eles investigam, reúnem informações de inteligência e provavelmente nem sempre seguem toda a burocracia do procedimento de cooperação internacional. Atuam junto à polícia brasileira e fazem, sim, um trabalho de influência, networking ou cooptação, a depender do ponto de vista. Ou seja, eles têm bastante trabalho e liberdade por aqui.
Mas também se movem em uma área bem cinzenta, aquela da Inteligência, ou Intelig. Escuta outro anúncio que encontrei, esse para “Surveillance Detector Coordinator” para a embaixada em Brasília. O anúncio diz que o candidato vai trabalhar com uma equipe de nada menos que OITO pessoas para detectar vigilância – ou espionagem – estrangeira sobre as propriedades do governo americano no Brasil. Pensou em filme de Hollywood? Ouviu a musiquinha de Missão Impossível? Pois esqueça. Esse é o mundo real da atuação do FBI por aqui e é nesse terreno pantanoso que se desenvolvem as relações de cooperação internacional.
Fim da trilha sonora
É por isso que durante a entrevista com o ex-delegado da PF, Oslain Santana, ele foi enfático ao dizer que ao tratar com agências americanas ele sempre ficava em alerta para não ser manipulado.
[Oslain Santana]
O que a gente fica com medo é de ser utilizado. O meu medo era ser manipulado. Com qualquer agência. É uma agência que você tem que ter a confiança, mas também não pode ser ingênuo. Será que eu não estou sendo usado aqui? Eu tinha essa preocupação de ser usado, até por conhecer a história.
Trilha sonora suspense
[Natalia Viana]
A história, agora, você já conhece. Durante seis episódios, depois de uma longa jornada de apuração, ainda me surpreende a ausência de informações e dados que possam esclarecer como é a atuação do FBI no Brasil. Partimos de uma pergunta, agora temos alguns fatos, mas novas perguntas foram surgindo pelo caminho. Agora você sabe o que é uma investigação jornalística e tem a consciência de que é bem mais complicado do que “dar um google” ou ver uma meia dúzia de vídeos compartilhados no WhatsApp. Quer dizer, eu espero (Riso).
Partimos da pergunta: os EUA estão por trás da Lava Jato ou isso é só uma teoria da conspiração? Mas durante o percurso, ficou claro que essa pergunta é muito binária, como se apenas uma das duas respostas fosse possível. Aprendemos que a realidade é mais complexa.
Trilha sonora clima de interferência
Houve cooptação da PF pelas agências americanas nos anos 90 e 2000 e isso é fato. Ouvimos que o governo americano espionou não só a então presidente Dilma Rousseff como também a própria Petrobras, que anos depois seria o pivô do escândalo da Lava Jato. Quando isso veio a público, Dilma até protestou na ONU e enviou o ministro José Eduardo Cardozo para falar para o então vice-presidente Joe Biden parar com isso. Mas tudo o que ele conseguiu foi um grande “não”.
Fim da trilha
[José Eduardo Cardozo]
Você conclui uma negativa e você tem que tomar alguma postura. O que seria uma represália. Por exemplo, imagina, eu poderia falar para a Dilma: vamos declarar guerra aos Estados Unidos, não seria bem o caso.
[Natalia Viana]
Claro, não declaramos guerra aos Estados Unidos e o governo americano afirmou na cara dura que continuaria nos espionando se isso fosse do interesse deles. Descobrimos, inclusive, que quem estava na mira dos americanos era a comunidade árabe brasileira, mais especificamente os hawalas, nossos conhecidos doleiros. Através de documentos diplomáticos e entrevista com agentes do FBI provamos que existia interesse americano na movimentação dos doleiros, em especial aqueles com ligação com a região da Tríplice Fronteira. Você se lembra da entrevista do doleiro Habib Chater para a Alice. Ele contou que foi preso no aeroporto de Brasília, cinco anos antes de a Lava Jato estourar e focar justamente na pessoa dele.
Efeito sonoro: alerta para leitura de mensagem.
[Leitura entrevista Chater por Alice Maciel]
“Teve uma época da minha vida que eu tive alguns bingos em Brasília, Goiânia e Anápolis. E aí começaram a fechar os bingos e na época eu falei, “vou pro Líbano. Vou levar umas máquinas pro Líbano”. E o Salomão conseguiu um esquema de eu mandar as máquinas por navio e entrar meio que porque lá era meio proibido. Numa dessas viagens eu fui preso com aqueles doze mil dólares. Eu fui preso e ele também.”
[Natalia Viana]
Essa prisão relacionada ao jogo ilegal faz lembrar outra entrevista, a do Bassem Youssef no episódio cinco. Ele contou que para o FBI, o Hezbollah era mais que uma organização terrorista. Era também uma organização criminosa que trabalhava entre outras coisas com o jogo ilegal.
Efeito sonoro: alerta de mensagem.
[Dublagem Bassem Youssef]
É uma organização criminosa que envolvia várias atividades, como roubo, prostituição, drogas, jogos de azar. E, por algum motivo, eles se estabeleceram na área da tríplice fronteira. E, então, as Hawalas ganharam destaque e ficaram sob uma lupa das agências de inteligência, não apenas o FBI e a CIA, mas muitas agências de inteligência em todo o mundo.
[Natalia Viana]
Podemos concluir que é bem difícil que uma prisão como essa, de dois libaneses levando bingos para o Líbano não tenha atraído a atenção do FBI na embaixada em Brasília.
Efeito sonoro: trilha de suspense
Ouvimos também o outro lado da cooperação internacional: como os procuradores americanos ajudaram, trocaram, e, por que não, seduziram os procuradores brasileiros, abrindo até caminhos para que delatores fossem interrogados nos Estados Unidos e fechassem acordos antes com o governo americano. Eles exploraram a zona cinzenta da cooperação internacional e a desconfiança que a turma da Lava Jato tinha do governo federal.
Depois de diversas tentativas de falar com procuradores do lado de cá, conseguimos entender que um possível duto para a influência americana é a troca informal de informações de inteligência, seja com procuradores, seja com agentes da Polícia Federal. É assim que os americanos podem sugerir à nossa polícia que investigue algo do interesse deles.
[Amanda Audi]
Acontece todos os dias? Assim, tá, não todos os dias, mas com muita frequência?
[Janice Ascari]
Com muita frequência, porque eles estão em contato com os órgãos policiais. Porque, normalmente, o que acontece? Essas informações chegam para a polícia e a polícia instala um inquérito. E o inquérito tem que, necessariamente, passar pelo Ministério Público. Tanto federal quanto estadual, cada um na sua esfera. E, assim, o arroz com feijão nosso é esse.
[Natalia Viana]
Percorremos, então, os Estados Unidos de ponta à ponta para conseguir falar com os investigadores americanos que atuaram na Lava Jato. O que essas conversas revelaram é que criar e manter relacionamento é um dos principais trabalhos dos agentes do FBI no exterior, mas também, que cada um dos agentes da lei, nos EUA, tem muito cuidado em preservar a segurança nacional americana. Ninguém quer dar com a língua nos dentes:
Você pode explicar quais são as regras do que você não pode falar, só para a gente deixar claro? Você não pode falar sobre casos?
[June Drake]
Não posso falar sobre os casos.
Efeito sonoro: eco “Não posso falar” e trilha espiral
[Lance Jasper]
No.
[Dublagem Lance Jasper]
Não. Posso dizer muito pouco sobre as entrevistas especificamente porque foram confidenciais e não públicas.
[Lance Jasper]
Public.
[Natalia Viana]
E onde isso tudo nos deixa? Uma investigação é sempre uma jornada. Talvez, ainda estejamos no meio do caminho.
[Amanda Audi]
Geralmente todas as coisas envolvendo FBI, CIA, é conspiração. Primeiro, porque tudo isso é muito sigiloso, a gente não sabe de quase nada. Não tem protocolo, não tem nada, a gente não sabe direito os nomes, você faz lá e para o governo, o governo também não sabe ou não informa. Então, fica algo meio que no ar, e isso abre muita margem para a imaginação.
[Natalia Viana]
Abre margem à imaginação, mas com o tempo, as verdades históricas são reveladas, até porque segundo a Lei de Acesso à Informação, de que tanto falamos aqui, os documentos confidenciais americanos são abertos ao público após, no máximo, 50 anos.
[Amanda Audi]
E assim, hoje a gente sabe que na ditadura, os americanos tiveram uma influência tremenda.
[Natalia Viana]
Sim.
[Amanda Audi]
A gente sabe hoje, mas eu imagino que naquela época, eles deviam ficar falando assim, “ah, mas isso é teoria, é conspiração”.
[Natalia Viana]
Essa é também a conclusão de Oslain Santana:
[Oslain Santana]
O americano, você pode falar que tem muito defeito, mas depois de 40 anos, a documentação se torna tudo público. Você tem documentos falando, eles atestando isso. Envolvimento de agências norte-americanas, com narcotraficantes, com ditadores. Será que isso parou?
Efeito sonoro: fim da trilha + pausa
[Natalia Viana]
Não é um fato comprovado que os Estados Unidos estiveram por trás da Lava Jato. Mas isso também, não é só uma teoria da conspiração. O desenrolar da história tem sempre muitas nuances. Os críticos da Lava Jato não são necessariamente contrários às investigações contra corrupção. E nem sempre os que têm receio da influência americana são esquerdistas ou comunistas. Alguns são, inclusive, policiais federais. Por outro lado, quem defende o trabalho da Lava Jato não é simplesmente lavajatista. Pode ser apenas um jornalista querendo descobrir a realidade de como funciona o clientelismo no Brasil.
Efeito sonoro: trilha instrumental “My Way” de Frank Sinatra
Chegamos ao episódio final dessa série, cujo título é My Way. Nome da canção imortalizada na voz de Frank Sinatra, uma música símbolo para os americanos e que também foi o nome de uma das 79 fases da Lava Jato. Mas, aqui, na nossa investigação, a expressão, “do meu jeito”, my way, ganha outro significado. Lembra uma frase dita pelo procurador americano, quando sugeriu criar uma fundação para gerir os fundos da Petrobras: “Where there is a will, there is a way”. “Onde tem vontade, tem jeito”.
Efeito sonoro: rebobinar
No final, o governo americano conseguiu impor seu jeito, seu modo de pensar, sobre a Lava Jato. Isso aconteceu de maneira sutil, com agrados, levando os brasileiros para palestrar nos Estados Unidos, elogiando-os em congressos internacionais. O governo dos Estados Unidos conseguiu duas multas bilionárias, enquanto isso, aqui no Brasil, a Lava Jato levou a um rombo na economia, perda de empregos, e, nem mesmo os procuradores e policiais que participaram se deram muito bem. Os abusos institucionais, inclusive, prejudicaram a luta anticorrupção e contribuíram para dividir o país ainda mais. Vai levar algum tempo para a ferida cicatrizar. De uma forma ou de outra, os americanos conseguiram fazer as coisas do jeito deles. “Yes, it was my way”, como diz a canção.
Trilha sonora aumenta
[Ricardo Terto]
Este Original Audible é baseado em eventos reais de conhecimento público, documentados em livros publicados, autos de processos judiciais, matérias e apurações jornalísticas, entrevistas e pesquisas em documentos públicos. As narrativas podem conter referências a terceiros. Os depoimentos e opiniões são de responsabilidade dos participantes ou especialistas e podem refletir diferentes perspectivas dos eventos.
CRÉDITOS
[Natalia Viana]
Confidencial: as digitais do FBI na Lava Jato é um original Audible produzido pela Agência Pública de jornalismo investigativo. Esta série foi concebida e dirigida por mim, Natalia Viana, e escrita pela Jackeline Scarpelli. A investigação jornalística foi conduzida por mim, com ajuda das repórteres Alice Maciel e Amanda Audi.
Sofia Amaral fez a produção executiva, e Mariana Sorrentino a assistência de produção executiva. Pesquisa por Luisa Santana e checagem por Erico Melo.
Ricardo Terto fez a montagem e sound design, e Ana Sucha foi nossa assistente de edição. Pedro Vituri é o autor da trilha sonora original. Demais trilhas por Audio Network. Colaboração de Cláudia Jardim.
Som direto, logagem e organização de material por Stela Diogo. Som direto adicional por Andres Ochoa, Apollo Maneschi, Daniel Hernandez, Gil Neves e Mike Fitzgerald. A Mika Lins fez a preparação vocal e direção de voz desta apresentadora. Esta narração foi gravada no Estúdio Trampolim, em São Paulo.
O ator Denis Goyos fez a dublagem da entrevista de Bassem Youssef e Aury Porto fez a voz de Lance Jasper, que aparecem nos episódios 5 e 6. Os mesmos atores fizeram as vozes do grampo telefônico de Ediel e Renê no episódio 2. As mensagens da Vaza Jato foram lidas por Ricardo Terto.
Consultoria Jurídica por Patrick Mariano Gomes e Giane Ambrósio Alvares. Seguros por Prospecto Seguros.
Financeiro por Roberta Carteiro.
A identidade visual foi criada por Matheus Pigozzi. A equipe de divulgação é formada por Marina Dias, Lorena Morgana, Renata Cons, Leticia Gouveia, Ethieny Karen, Ester Nascimento e Fernanda Diniz.
Time de Conteúdo Audible Brasil:
Diretor de Conteúdo Original Audible: Leo Neumann,
Coordenação criativa: Juliana ”Denden” Arcanjo,
Produção: Fernando Schaer,
Líder de conteúdo LATAM: Paulo Lemgruber,
Diretora-geral Brasil: Adriana Alcântara,
Líder de Produção Audible Studios: Mike Charzuk,
Líder Global de conteúdo: Rachel Ghiazza.
[Ricardo Terto]
No episódio 1 foram usados áudios dos acervos Conteúdo Globo, Band Imagem e Acervo EBC/Canal Gov.
No episódio 2, utilizamos áudios do acervo Conteúdo Globo
No episódio 3, utilizamos áudios dos acervos Áudio/Youtube TRF4, Acervo EBC e Conteúdo Globo.
No episódio 4, utilizamos áudios dos acervo Tv Cultura.
No episódio 5, utilizamos áudios dos acervos Band Imagem e Conteúdo Globo.
E, por fim, no episódio 6, utilizamos áudios dos acervos Conteúdo Globo e YouTube FBI.
[Natalia Viana]
Copyright 2025 por Audible, Inc.
Copyright da gravação de som 2025 por Audible, Inc.
[Ricardo Terto]
Você ouviu uma áudio série, Original Audible. Para conhecer mais histórias surpreendentes e imersivas como está, acesse o site audible.com.br. Faça sua conta e teste grátis por 30 dias ou por 3 meses, se você for membro Amazon Prime.
Fonte: Em Sergipe









