O mar ao redor da Grã-Bretanha reúne correntes imprevisíveis, águas frias, tempestades e algumas das rotas marítimas mais movimentadas do planeta. Foi nesse cenário que Ross Edgley tentou completar uma jornada que nenhum nadador havia terminado, transformando um barco de apoio em sua única casa durante meses.
Como nasceu a volta à Grã-Bretanha que parecia impossível?
Ross Edgley é um atleta britânico especializado em desafios de resistência. Em 1º de junho de 2018, ele entrou no mar em Margate, no sudeste da Inglaterra, com o objetivo de contornar a ilha da Grã-Bretanha a nado e retornar exatamente ao ponto de partida. A rota seguiria no sentido horário, acompanhando praias, estuários, canais de navegação e trechos expostos do Atlântico Norte.
Não havia uma previsão totalmente segura para a duração da viagem, porque o avanço dependia das marés, das correntes e das condições meteorológicas. Edgley deveria nadar durante a janela em que a água o empurrasse na direção correta e permanecer no barco quando o oceano tornasse o deslocamento perigoso ou improdutivo. O planejamento transformou a expedição em uma combinação de esporte, navegação e leitura constante do mar.
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Como Ross Edgley ficou 157 dias sem pisar em terra?
A travessia foi registrada oficialmente como uma natação assistida por etapas. Ross saía do barco de apoio, nadava durante horas e voltava à embarcação para comer, dormir e receber cuidados da equipe. A posição em que deixava a água era registrada, permitindo que o barco retornasse ao mesmo ponto na etapa seguinte. Assim, a rota permanecia contínua, embora o atleta descansasse fora do mar. Durante os 157 dias, ele não colocou os pés em terra nenhuma vez.
- Nadar em blocos de aproximadamente seis horas
- Descansar e alimentar-se no barco de apoio
- Registrar as coordenadas exatas de cada parada
- Retornar ao mesmo ponto para iniciar a etapa seguinte
- Ajustar os horários conforme as marés e o clima
- Permanecer sem desembarcar até completar o percurso
O episódio “Job Done | Ross Edgley’s Great British Swim E24”, publicado pelo canal Red Bull, acompanha a chegada a Margate e resume os momentos decisivos da expedição. O vídeo mostra Ross entrando na água para o trecho final, sendo acompanhado por outros nadadores e finalmente tocando a praia depois de quase cinco meses vivendo entre o oceano e o barco de apoio.
Como funcionava a rotina de 12 horas diárias dentro do mar?
A estratégia normalmente alternava seis horas de natação com aproximadamente seis horas de descanso, seguindo o ritmo das marés. Em muitos dias, isso significava entrar no mar duas vezes e acumular cerca de 12 horas nadando, inclusive durante a noite. O barco Hecate acompanhava o atleta, ajudava a definir a rota e funcionava como dormitório, cozinha e centro de recuperação.
Para compensar o enorme gasto energético, Ross consumia aproximadamente 10 mil a 15 mil calorias por dia. A alimentação precisava ser frequente e rica em energia, pois o corpo queimava calorias tanto para produzir movimento quanto para manter a temperatura em águas frias. No total, estimativas divulgadas após a jornada indicaram 2,3 milhões de braçadas e mais de 500 mil calorias gastas.
Quais números revelam a escala da volta à Grã-Bretanha?
Ross encerrou a jornada em 4 de novembro de 2018, retornando a Margate 157 dias depois da partida. O Guinness World Records registrou 209 etapas e uma distância total de 2.884 quilômetros, reconhecendo o feito como a primeira natação assistida por etapas ao redor da Grã-Bretanha.
| Marca registrada | O que representa |
|---|---|
| 2.884 km | Distância total reconhecida |
| 157 dias | Tempo vivido no mar e no barco |
| 209 etapas | Trechos documentados da natação |
| 12 horas | Média diária dentro da água |
| 1º da história | Primeiro a completar o contorno a nado |
A distância equivale a mais de 68 maratonas terrestres consecutivas. Além do percurso completo, Ross estabeleceu marcas intermediárias, como a travessia a nado entre Land’s End e John o’ Groats em 62 dias. No retorno a Margate, centenas de pessoas acompanharam a chegada, e um grupo de nadadores entrou na água para dividir com ele a última parte do percurso.
Como o corpo suportou tempestades, água fria e meses de esforço?
O desafio não dependia apenas da força dos braços. O contato prolongado com a água salgada provocou irritações na boca e ferimentos por atrito na região do pescoço, enquanto os ombros repetiam milhares de movimentos diariamente. Ross também atravessou áreas com águas-vivas, ondas fortes, correntezas e tráfego de grandes embarcações. A equipe precisava monitorar sua saúde e adaptar roupas, alimentação e períodos de recuperação ao longo da viagem.
As tempestades obrigaram o barco a buscar abrigo em alguns momentos, mas Ross continuava sem desembarcar. O frio da costa escocesa, a baixa visibilidade das etapas noturnas e a imprevisibilidade das correntes tornavam impossível manter o mesmo ritmo todos os dias. Em vez de tentar vencer o oceano pela força, a equipe trabalhava para reconhecer quando avançar e quando esperar pela próxima janela segura.

Por que a volta à Grã-Bretanha entrou para a história da natação?
A chegada confirmou Ross Edgley como a primeira pessoa a completar o contorno da Grã-Bretanha a nado sem tocar em terra durante o percurso. O feito foi reconhecido como a mais longa natação marítima assistida por etapas e mostrou que uma expedição desse porte depende tanto da resistência do atleta quanto do trabalho da tripulação, da navegação e do controle preciso das marés.
Mais do que permanecer 157 dias longe da terra firme, Ross precisou repetir a mesma rotina em condições que mudavam diariamente. A imagem de sua chegada, caminhando novamente sobre a praia de Margate, encerrou uma viagem de 2.884 quilômetros que começou no mesmo ponto cinco meses antes — e transformou toda a costa britânica em uma única prova de resistência.
Fonte: O Antagonista









