
No universo da música e da cultura pop, a MTV ocupou um lugar de destaque, transformando o modo como acessamos e consumimos arte. Ao lado do rádio, ela se tornou uma autoridade, especialmente no que diz respeito ao fenômeno mundial da cultura pop. Segundo Marcelo Braga, diretor-geral da Forbes Radio, a MTV não apenas transmitia canções, mas oferecia uma experiência completa: “A MTV foi importante porque transformou música em linguagem visual. Ela não entregava apenas canções; entregava estética, comportamento e referências culturais”. Essa emissora foi crucial para solidificar a imagem dos artistas, ampliar conceitos visuais e de moda, e reforçar costumes emergentes, especialmente no mercado americano.
Um dos exemplos mais emblemáticos dessa transformação é Michael Jackson. A exibição de “Billie Jean” em alta rotação na MTV americana em 1983 marcou uma virada definitiva na relação entre videoclipe e indústria fonográfica. A música deixou de ser apenas um deleite para os ouvidos e passou a disputar intensamente a atenção visual do público. A partir daí, não bastava mais apenas compor melodias cativantes; era preciso construir narrativas visuais, desenvolver uma identidade artística e criar um universo particular para cada artista.
Marcelo Braga reforça essa ideia: “Os clipes passaram a ser peças visuais fundamentais para construir a imagem de um artista, ditar tendências de moda e comportamento, além de serem vitrines para as mensagens que os artistas queriam passar”. Ao longo de quatro décadas, ícones musicais moldaram gerações. Os anos 80 foram marcados por Van Halen, Bon Jovi e The Police. Nos anos 90, com a MTV já consolidada globalmente, nomes como Prince, Michael Jackson e Madonna dividiram espaço com o grunge do Nirvana e o hip-hop de Missy Elliott. A virada do milênio trouxe a explosão de Britney Spears e das boy bands, como Backstreet Boys, seguida por artistas como Beyoncé, Lady Gaga e Taylor Swift nos anos 2010.
No Brasil, a MTV foi inaugurada em 20 de outubro de 1990. Embora tenha chegado um pouco mais tarde ao país, seu impacto foi imenso, ajudando a moldar o gosto musical e cultural dos jovens dos anos 90 e 2000. Braga explica que, apesar de sua audiência ser menor em comparação com o rádio ou a TV aberta, a influência da MTV era significativamente maior. O videoclipe deixou de ser um mero material promocional na TV Globo, por exemplo, para se consolidar como uma linguagem audiovisual própria, com efeitos semelhantes aos observados em outros países. “Uma transformação no consumo de música que ajudou a transformar grandes artistas em gigantes culturais”, pontua Braga. Os clipes eram exibidos 24 horas por dia, sete dias por semana, em um modelo rotativo similar ao das rádios. Antes da era das redes sociais, poucas plataformas ofereciam tamanha exposição contínua e repetida, fazendo com que artistas influenciassem moda, cortes de cabelo, linguagem e atitudes não só pela música, mas pela forma como se apresentavam na tela. O videoclipe se tornou uma plataforma musical e uma vitrine de estilo.
A Mudança no Consumo e o Fim de uma Era
A MTV foi concebida em um cenário de escassez midiática, onde o acesso a videoclipes e à imagem dos artistas era limitado. Isso fomentou uma relação mais profunda com o conteúdo artístico, integrando música, imagem, atitude e discurso. Atualmente, qualquer artista pode lançar um clipe instantaneamente no YouTube, com trechos no TikTok ou no Instagram. Braga observa que “o mérito da MTV foi responder brilhantemente a uma necessidade daquele momento histórico. A internet alterou essa necessidade, e criou uma outra forma de demanda e consumo cultural”.
O consumo musical digital, por sua vez, é menos intencional; não exige a escolha, pesquisa ou compra de um produto. Em vez disso, é moldado por algoritmos que tentam antecipar o gosto do usuário com base em seu histórico. “Ganhamos acesso, diversidade e liberdade de escolha. Mas perdemos parte da experiência coletiva e da profundidade da relação entre artistas e público”, reflete Braga. A MTV proporcionava um consumo compartilhado e a criação de memórias em grupo, algo que se perdeu. “Hoje cada pessoa vive sua própria trilha sonora, tornando muito mais raro o surgimento de um big hit ou de um artista icônico”, conclui.
A MTV não conseguiu se manter frente à crise da TV por assinatura e às transformações no consumo. No início de 2026, a emissora encerrou seus canais dedicados a videoclipes 24 horas em diversos países, incluindo Brasil, Estados Unidos, França e Alemanha. A MTV Music encerrou sua trajetória exibindo “Video Killed the Radio Star”, do The Buggles, em 31 de dezembro de 2025, após 38 anos de existência.
O Poder da Nostalgia na Era do Streaming
Atualmente, nenhuma plataforma sozinha ocupa o papel que a MTV desempenhou no final do século XX. A influência se fragmentou entre TikTok, YouTube, Spotify, rádio, shows, Instagram e criadores de conteúdo. Braga nota que “a diferença é que antes existia um centro irradiador de tendências; hoje elas surgem simultaneamente em diversos lugares, só que com menor impacto e gerando um descarte muito mais rápido, afinal, amanhã temos mais milhares de músicas e artistas novos para consumir”.
Apesar das previsões sobre o fim do videoclipe, ele se reinventa. Artistas de peso continuam investindo em produções milionárias, e plataformas de streaming como o Spotify já incorporam a reprodução de vídeos. Um estudo da Vevo, “Then is Now”, revela que a Geração Z lidera uma “nostalgia emprestada”, demonstrando apego emocional por décadas que não viveram, o que explica o interesse renovado pela estética dos anos 80 e 90. Esses jovens, nativos digitais, buscam experiências compartilhadas semelhantes às que existiam antes do conteúdo sob demanda. A música é o principal motor dessa nostalgia (88%), com videoclipes despertando ainda mais esse sentimento (68%), pois combinam a experiência sonora com a memória visual, eternizando momentos de forma poderosa.
Fonte: Em Sergipe









