À primeira vista, eram apenas pedaços endurecidos misturados ao solo seco da zona rural. O morador, porém, percebeu que havia algo diferente naquele material e procurou ajuda. Os fragmentos acabaram revelando um dos maiores mamíferos que já caminharam pelo território brasileiro.
Como o fóssil de Parelhas saiu de um terreno seco e chegou à universidade?
A descoberta ocorreu na zona rural de Parelhas, município do Seridó potiguar integrado ao território do Geoparque Mundial da UNESCO Seridó. Depois que um morador encontrou os fragmentos, pesquisadores foram acionados para verificar o ponto de ocorrência e recolher o material de maneira adequada, evitando perdas de informações sobre a posição e o ambiente em que os ossos estavam preservados.
A identificação do local foi conduzida por Marcos Nascimento, da UFRN, e Matheus Silva, da Unesp. A coleta envolveu Virgínia Maciel, Aline Ghilardi e Tito Aureliano, pesquisadores ligados ao DinO-LAB e ao Laboratório de Paleontologia e Paleoecologia da UFRN. O episódio mostra como a atenção de um morador pode abrir uma nova frente de pesquisa científica em uma região ainda pouco explorada.
Leia também: O cofre escavado a mais de 100 metros no Ártico que guarda 1,4 milhão de amostras para salvar plantações
Que animal gigantesco estava escondido nos fragmentos encontrados no Seridó?
As análises indicaram que os pedaços de fêmur, costela e falange pertenciam à espécie Eremotherium laurillardi, uma preguiça-gigante terrestre que habitou áreas intertropicais das Américas durante o Pleistoceno. Diferentemente das pequenas preguiças atuais, ela caminhava sobre o solo, possuía membros extremamente robustos e podia assumir uma postura ereta para alcançar vegetação mais alta.
- Comprimento estimado: Até 6 metros
- Peso aproximado: Cerca de 5 toneladas
- Ossos encontrados: Fêmur, costela e falange
- Local da descoberta: Zona rural de Parelhas
- Espécie identificada: Eremotherium laurillardi
A reportagem “Fósseis de preguiças-gigantes são descobertos no Geoparque Seridó”, publicada pela TV Ponta Negra, apresenta o achado realizado em Parelhas e explica sua importância para as pesquisas sobre a megafauna do Rio Grande do Norte. As imagens ajudam a visualizar os fragmentos recuperados, o trabalho dos pesquisadores e a dimensão científica de uma descoberta iniciada por um morador da zona rural.
Como uma preguiça podia alcançar 6 metros e pesar 5 toneladas?
A aparência desse animal estava muito distante da imagem delicada das preguiças que vivem hoje nas árvores. O Eremotherium laurillardi tinha um corpo volumoso, cauda forte, patas largas e ossos preparados para sustentar várias toneladas. Quando apoiado sobre as patas traseiras e a cauda, conseguia elevar a parte dianteira do corpo e alcançar folhas, galhos e outros recursos vegetais acima do solo.
Pesquisas com fósseis encontrados no Nordeste indicam que a espécie possuía alimentação variada dentro de uma dieta predominantemente vegetal. Estudos isotópicos sugerem o consumo de plantas de diferentes ambientes, característica que provavelmente ajudava o animal a sobreviver às mudanças sazonais de vegetação e disponibilidade de alimento ocorridas no final do Pleistoceno.
O que o fóssil de Parelhas revela sobre o sertão pré-histórico?
Hoje, a paisagem de Parelhas é marcada pelo clima semiárido, pela vegetação da Caatinga e por longos períodos de baixa umidade. O registro da preguiça-gigante não significa, entretanto, que o ambiente fosse exatamente igual quando o animal viveu. Fósseis como esse permitem investigar oscilações climáticas, mudanças na vegetação e a antiga distribuição de grandes mamíferos pelo Nordeste brasileiro.
O animal fazia parte da chamada megafauna, grupo que incluía outras espécies de grande porte, como mastodontes, tatus-gigantes, toxodontes e felinos de dentes longos. Registros semelhantes já foram encontrados em diferentes áreas do Nordeste, mas cada nova ocorrência ajuda a preencher as lacunas sobre onde esses animais viveram e como ocuparam o território que hoje corresponde ao semiárido.
Por que fêmur, costela e falange bastaram para reconhecer a espécie?
O fêmur é um dos maiores e mais resistentes ossos do corpo, podendo fornecer informações sobre porte, sustentação e anatomia dos membros traseiros. A costela ajuda a compreender as proporções do tórax, enquanto a falange pertence aos dedos e conserva características importantes para comparar o material com esqueletos já catalogados em museus e coleções científicas.
Os pesquisadores observam formato, tamanho, espessura, curvatura e pontos de articulação dos ossos. Essas características são confrontadas com exemplares conhecidos da espécie. No caso de Parelhas, a combinação anatômica permitiu atribuir os fragmentos ao Eremotherium laurillardi, espécie amplamente registrada em depósitos pleistocênicos do Brasil intertropical.

Os fragmentos deverão ser catalogados, tombados e incorporados ao acervo do Geoparque Seridó, onde poderão integrar atividades de pesquisa, educação científica e exposição pública. A expectativa é que o estudo completo seja posteriormente formalizado em uma publicação científica, reunindo as informações anatômicas e geológicas obtidas durante a análise.
A descoberta também reforça a necessidade de preservar o terreno e orientar os moradores sobre como agir diante de possíveis fósseis. O correto é não retirar, limpar, colar ou quebrar o material por conta própria, pois o sedimento ao redor e a posição dos ossos podem guardar dados essenciais. A participação da comunidade foi decisiva neste caso: um detalhe notado no solo seco acabou devolvendo ao Rio Grande do Norte parte de uma história iniciada milhares de anos antes das cidades atuais.
Fonte: O Antagonista









