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Terras raras brasileiras estão no radar do Departamento de Defesa dos EUA


Caças F-35, drones e mortais mísseis Tomahawk. Todos esses armamentos que os Estados Unidos vêm usando contra o Irã têm algo em comum: ímãs poderosos feitos com terras raras. Esses elementos químicos têm características especiais, como o alto magnetismo e a resistência a altas temperaturas, que os tornaram essenciais para a indústria da guerra. Garantir a oferta deles se tornou uma prioridade do governo Donald Trump, que vem investindo diretamente em mineradoras para extrair e processar terras raras fora da China.

Não é uma tarefa simples. A China controla boa parte da extração e mais de 90% do processamento desses elementos – e tem usado essa vantagem em suas disputas geopolíticas e comerciais com os EUA. Nos últimos anos, o governo chinês impôs várias restrições às exportações de terras raras, alegando ameaças à segurança e aos interesses do país. Já o Departamento de Defesa americano, rebatizado por Trump como Departamento da Guerra, decidiu proibir, a partir de 2027, a aquisição de ímãs feitos com esses elementos extraídos ou processados na China e em outros países considerados inimigos, como Rússia, Irã e Coreia do Norte. É no meio dessa disputa que entra o Brasil, dono da segunda maior reserva de terras raras no mundo.

Por aqui, o apelo das terras raras é outro. Suas aplicações em motores de carros elétricos e turbinas eólicas também as fazem fundamentais para as tecnologias da transição energética – processo que visa a mudança para fontes de energia mais limpas, em vez daquelas à base de combustíveis fósseis, emissoras de gases do efeito estufa. Por isso, mineradoras de terras raras foram incluídas em programas do Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES) e do governo federal, como a Plataforma Brasil de Investimentos Climáticos e para a Transformação Ecológica, que visam incentivar o estabelecimento de uma cadeia industrial brasileira para a descarbonização da economia.

Essas mesmas mineradoras, porém, já entraram no radar do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, sobretudo a Serra Verde, que produz um concentrado de elementos de terras raras, incluindo o samário, usado para fabricar ímãs utilizados em mísseis de longo alcance, como o Tomahawk.

Em abril, a Serra Verde, única mineradora com exploração comercial de terras raras no país, anunciou sua aquisição pela americana USA Rare Earth e a formalização de um contrato de fornecimento de 15 anos, abrangendo 100% da sua produção para uma “Empresa de Propósito Específico”, que não foi nomeada, mas que foi capitalizada por agências do governo dos EUA e fontes privadas. A conclusão da operação entre as empresas está prevista para o final de agosto, segundo a CNN.

A mineradora já explora um grande depósito de terras raras em Minaçu, no norte de Goiás. Dados da Secretaria de Comércio Exterior mostram que, ao longo de 2026, o município exportou quase 678 toneladas de terras raras para a China e apenas 51 kg para os Estados Unidos. Já este ano, o município ainda não exportou para a China, mas, em fevereiro, enviou duas toneladas para os EUA. O uso final desse material, entretanto, não foi especificado. A Serra Verde preferiu não responder às perguntas da reportagem sobre os acordos comerciais com os EUA e se as terras raras brasileiras podem ser usadas para produzir armas de guerra norte-americanas.

Porém, em abril, Barbara Humpton, CEO da USA Rare Earth, disse, em entrevista à Fox News, que a aquisição da produção da Serra Verde pela “Empresa de Propósito Específico” permitirá que os EUA tenham acesso a insumos para a indústria da defesa.

“A Serra Verde é a única produtora das terras raras pesadas fora da Ásia e ela tem as quatro terras raras magnéticas”, disse Humpton. “E a iniciativa brilhante do governo dos EUA foi criar uma sociedade de propósito específico, com apoio de várias agências governamentais e investimento privado, para garantir um contrato de compra de 100% da produção por 15 anos, assegurando que nós tenhamos acesso aos materiais necessários para a nossa economia e para a nossa defesa”, completou a executiva.

Para isso, a USA Rare Earth, dona da Serra Verde, já garantiu US$ 1,6 bilhão em financiamento do governo americano, que terá participação acionária na companhia. Também comprou a britânica Less Common Metals, uma das maiores fornecedoras de ligas metálicas de terras raras, e firmou um acordo de vendas mútuas com a Arnold Magnets. Diante das restrições chinesas, essas duas empresas – Less Common Metals e Arnold Magnets – trabalharam ao longo do ano passado para encontrar fontes alternativas de samário a fim de continuar produzindo os ímãs usados em mísseis Tomahawk, como mostrou o jornal americano New York Times. A solução, na época, foi recuperar um estoque de samário de uma fábrica na França.

Segundo o Washington Post, apenas nas quatro primeiras semanas de guerra contra o Irã, em março, os EUA disparam mais de 850 mísseis Tomahawk. Evidências apontam que um deles pode ter atingido a área vizinha de uma escola, na cidade de Minab, onde, conforme as autoridades iranianas, pelo menos 168 pessoas morreram – mais de cem crianças entre elas.

A plataforma oficial de compras do governo dos EUA mostra que a Less Common Metals tem um contrato firmado em setembro do ano passado com o Departamento de Defesa para a produção de samário no valor de US$ 1,5 milhão (por enquanto, nenhum recurso foi desembolsado). Já a Arnold Magnets também tem um contrato com o departamento, no valor de US$ 275 mil, ainda não pagos, para a manufatura de componentes eletrônicos. A USA Rare Earth, por sua vez, também chegou a ter uma ordem de compra registrada pelo Departamento de Defesa. Em junho, numa nova rodada de restrições, o governo Chinês incluiu a USA Rare Earth e outras nove americanas na lista de empresas de controle de exportações, impedindo que companhias chinesas e estrangeiras forneçam materiais usados em aplicações militares que tenham sido extraídos ou processados na China, como o samário e outros elementos de terras raras.

Diferentemente de outros elementos de terras raras, que também possuem importantes aplicações nas cadeias de energia e de eletrônicos, o samário é hoje majoritariamente usado pela indústria militar por conta de sua resistência a altas temperaturas. Desde abril do ano passado, a China restringiu a exportação desse elemento e seus derivados, como as ligas metálicas, e passou a exigir uma série de documentos para a obtenção de licenças de exportação, incluindo a identificação do usuário final dos produtos – que, em muitos casos, são fabricantes de armamentos.

O elemento é tão estratégico que foi destacado em uma apresentação da USA Rare Earth disponível para investidores. Na página em que a empresa comparou a operação da Serra Verde com outras concorrentes e com a China, foram listados vários atributos, como a extração das terras raras magnéticas e de samário. Apenas a Serra Verde e a China aparecem listadas como tendo “operação comercial” para “metal de samário”.

Uma apresentação anterior da companhia mostrava que o concentrado de terras raras produzido pela mineradora tinha cerca de 3,9% de samário.

Apesar do nome, as terras raras não são escassas no mundo. O problema é que costumam ser encontradas em baixas concentrações e misturadas a outros minerais, o que torna o processo de extração mais difícil. O tipo de depósito – que pode ser de rocha ou de argila – também influencia quais elementos específicos de terras raras estarão presentes ou não. No Brasil, o concentrado produzido pelas mineradoras é resultado da extração dos elementos de terras raras da argila em que estavam inseridos. Depois, esses elementos ainda precisam ser separados para que possam ser destinados a diferentes cadeias produtivas.

Além da Serra Verde, outra mineradora que está em processo de obtenção da licença ambiental para operar no Brasil também tem laços com o ecossistema do Departamento de Defesa dos EUA. Trata-se da Meteoric, empresa australiana que está desenvolvendo um projeto para explorar 425 hectares de um depósito de terras raras em Caldas e Poços de Caldas, em Minas Gerais.

Em 2024, a empresa assinou um Memorando de Entendimento, instrumento usado em negociações ainda preliminares, com a Ucore, uma empresa canadense que está construindo uma planta de processamento de terras raras nos Estados Unidos com financiamento do Departamento de Defesa. O protocolo de intenção prevê o fornecimento futuro de três mil toneladas de terras raras produzidas pela Meteoric para a Ucore. Por enquanto, a Meteoric só produz um concentrado de terras raras em escala experimental. O plano é iniciar a produção comercial em 2028.Procurada pela reportagem, a Meteoric afirmou, em nota, que “a definição da aplicação final desses materiais ocorre nas etapas posteriores da cadeia produtiva e depende das decisões comerciais de seus clientes”.

“O Memorando de Entendimento firmado com a Ucore não é vinculante, logo não há parceria comercial ou responsabilidade nas etapas subsequentes ao processamento do produto intermediário”, afirmou a Meteoric. “A Ucore atua como empresa de processamento e separação de terras raras, produzindo óxidos individuais de alta pureza que posteriormente são comercializados para diferentes segmentos industriais”, completou.

Recentemente, a Ucore, que também tem investimento do governo do Canadá, informou que está acelerando seus planos para a produção comercial de samário. “Programas de defesa não falham na etapa inicial, eles falham nos gargalos. Samário e gadolínio [outro elemento de terra rara usado na cadeia militar] são exatamente esse tipo de gargalo”, afirmou Pat Ryan, CEO da empresa. “As fornecedoras estão sendo pressionadas a qualificar cadeias de suprimentos que não dependam de países restritos antes do prazo crítico de conformidade de 2027, enquanto autorizações de exportação da China permanecem como uma restrição estrutural. A Ucore está avançando no desenvolvimento de um processo dedicado de refino de samário e gadolínio para atender aos cronogramas de prontidão dos países aliados”, completou.

Por transição energética, mineradoras são selecionadas pelo BNDES

A Serra Verde aparece entre os projetos da Plataforma Brasil de Investimentos Climáticos e para a Transformação Ecológica, plataforma liderada pelo Ministério da Fazenda e com envolvimento de outros ministérios e do BNDES que visa conectar investidores a projetos sustentáveis para a descarbonização da economia. A Meteoric também figura entre os projetos em fase de captação.

As duas mineradoras também foram selecionadas em uma chamada pública do BNDES e da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos) voltada para minerais críticos, entre eles as terras raras. O objetivo é incentivar planos de negócio que contemplem o desenvolvimento de processos para a produção de materiais transformados e manufaturados voltados para a transição energética.

Com a seleção dos planos de negócios, o BNDES vai auxiliar as mineradoras na montagem de pacotes de financiamento, que podem vir a incluir acesso a linhas de crédito subsidiados, investimento em participação acionária ou aporte de recursos não reembolsáveis e, possivelmente, até o uso de recursos do Fundo Clima, principal instrumento do governo para financiar projetos e empreendimentos que reduzem as emissões de gases do efeito estufa. No total, os planos de negócios selecionados demandam R$ 45,8 bilhões de investimentos. O BNDES pretende colaborar com pelo menos R$ 5 bilhões em financiamentos.

Questionado pela reportagem sobre o eventual risco de terras raras extraídas pelas mineradoras virem a ser usadas pela indústria de defesa dos EUA, o BNDES afirmou que as análises necessárias para o processo de concessão de financiamento incluem uma visão detalhada sobre os projetos, inclusive os mercado-alvo, “cuja expectativa é que sejam majoritariamente relacionados à transição energética e à descarbonização”. Também disse que “a seleção não dispensa a análise técnica, socioambiental, financeira e jurídica dos projetos, nem tampouco gera expectativa de direito com relação à aprovação de cada projeto no âmbito dos instrumentos de apoio financeiro. Dessa forma, os projetos submetidos para análise do BNDES deverão demonstrar o atendimento ao que dispõe o Regulamento Socioambiental e Climático para Apoio ao Setor de Mineração”.

Ainda assim, em resposta à Pública, o BNDES reconhece que na mineração e no processamento de minérios é comum a obtenção de coprodutos que também podem ter destinação comercial. “As empresas naturalmente buscam as melhores condições de mercado para a destinação desses coprodutos”, afirmou o banco em nota.

Procurado, o Ministério da Fazenda não respondeu até a publicação deste texto, que será atualizado em caso de resposta.

Segundo a Agência Internacional de Energia, o setor de energia limpa responde hoje por cerca de 21% da demanda por terras raras (11% para veículos elétricos e 10% para energia eólica). “Outros usos”, que não foram especificados, somam 72%. A previsão é que no cenário atual de políticas para descarbonização, o setor de energia limpa chegue a 30% da demanda global por esses elementos em 2030.

O presidente Donald Trump nega a crise climática. Seu governo vem trabalhando a favor do setor de combustíveis fósseis e contra o setor de energias renováveis, retirando incentivos para a produção de carros elétricos e até pagando empresas para suspenderem projetos de geração eólica.

Mas para além das tecnologias da transição energética, terras raras são usadas no setor aeroespacial e automotivo, em aparelhos eletrônicos (como celulares e discos rígidos de computador) e de raio-x, além de tecnologias de LED e de laser.

Segundo estimativas, o setor militar responde por uma parte muito pequena da demanda por esses elementos – menos de 5%. Ainda assim, o interesse do governo Trump nesta área é evidente.

Neodímio (Nd) e Praseodímio (Pr) Disprósio (Dy) e Térbio (Tb) Cério (Ce) Lantânio (La) Ítrio (Y) Samário (Sm) Túlio (Tm) Outros

Neodímio (Nd) e Praseodímio (Pr)

Superímãs de carros elétricos, turbinas eólicas e equipamentos militares.

Disprósio (Dy) e Térbio (Tb)

Também usados, em menor quantidade, nos superímãs Cério (Ce): Lâmpadas de LED

Cério (Ce)

Lâmpadas de LED

Lantânio (La)

Separação de componentes do petróleo, baterias e lentes

Ítrio (Y)

Lasers

Samário (Sm)

Ímãs de motores para aviões

Túlio (Tm)

Dispositivos de Raio-X

Outros

(Érbio [Er], Escândio [Sc], Európio [Eu], Gadolínio [Gd], Itérbio [Yb], Hólmio [Ho], Lutécio [Lu], Promécio [Pm]): usos como telas de smartphones e TVs, equipamentos médicos e lasers

“Há preocupações tanto com o mercado militar quanto com o mercado comercial”, afirmou Stanley Trout, especialista em metalurgia e em ímãs de terras raras com quase cinco décadas de experiência no setor. “A preocupação com o setor militar é desproporcional ao tamanho dele, por razões óbvias. Para obter sucesso, é preciso haver negócios em ambas as áreas”, explicou.

“Na maioria dos casos, esses minerais [como as terras raras], cuja demanda é principalmente impulsionada por usos civis, permanecem críticos para setores de defesa, nos quais eles raramente podem ser substituídos”, diz o relatório mais recente da Agência Internacional de Energia.

Em 2025, Trump assinou uma ordem executiva para usar uma lei de produção para o setor de defesa a fim de priorizar a produção de minerais críticos nos Estados Unidos. A ordem afirma que 70% das importações americanas de terras raras vêm da China e que os minerais críticos são “essenciais para a prontidão militar dos EUA”.

“O Brasil é um exportador de minérios. E algumas empresas brasileiras podem já ter fornecido ou estar fornecendo minérios para a indústria de armamentos”, disse Bruno Milanez, professor da faculdade de Engenharia da Universidade Federal de Juiz de Fora. Ele cita evidências que apontam o possível abastecimento de nióbio extraído no Brasil para as indústrias de armamento israelenses, britânicas e japonesas, além de relatórios de empresas de armamento americanas com fornecedores brasileiros para tântalo, titânio e tungstênio.

“A cadeia da mineração é global, muito longa e relativamente opaca. As mineradoras não têm interesse em monitorá-la. Não está claro que os projetos [de terras raras] vão fornecer para a indústria de armamentos, mas também não há nada, hoje, que impeça isso de acontecer”.

Nem o BNDES nem o governo brasileiro têm controle sobre os acordos firmados entre compradores e as mineradoras que atuam no país. No Senado, um dos projetos de lei de criação de uma política para minerais críticos e estratégicos prevê a criação de um conselho para fazer a homologação (ou seja, a validação) de mudanças no controle societário de empresas donas de direitos minerários e contratos ou parcerias internacionais que envolvam o fornecimento de minerais que possa afetar a segurança econômica ou geopolítica do Brasil. O texto, no entanto, está parado e, recentemente, senadores se movimentaram para avançar com outro projeto, que propõe apenas um acompanhamento dessas mudanças empresariais e parcerias. Essa discussão, porém, é muito mais sobre soberania nacional e o nível de controle que o estado brasileiro terá sobre o setor. Nenhum dos projetos trata da destinação desses minerais extraídos no país.

Para Milanez, o destino final das terras raras extraídas no Brasil levanta uma questão de transparência, tanto para a sociedade (e, em especial, para aqueles que vivem em territórios onde há extração), quanto para financiadores, sejam eles públicos ou privados. “Eles captam recursos dizendo que é para transição energética. Mas e se não for? Tem fundos de investimento que têm políticas para não se envolver com setores como tabaco, bebida, armas”.

Milanez vê possíveis problemas contratuais, mas também éticos. “O que significa o Brasil vir a abastecer a indústria da guerra? E isso num contexto de aumento de ataques contra civis. As mineradoras não deveriam poder lucrar livremente com a venda de um material que tem o potencial de ser usado em eventuais crimes de guerra”, diz.





Fonte: Em Sergipe

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