Milhares de migrantes tentaram atravessar a fronteira entre o Marrocos e Ceuta, exclave espanhol no continente africano, no fim de julho de 2026, em episódio que resultou em dezenas de mortes por afogamento e por incidentes ligados à aglomeração de pessoas.
Segundo a Deutsche Welle, o fluxo repentino de travessias teria sido impulsionado por publicações enganosas nas redes sociais, que distorceram uma decisão da Suprema Corte da Espanha sobre o procedimento de devolução de migrantes.
Decisão judicial foi distorcida online
A determinação do tribunal espanhol, proferida no início de julho, estabeleceu que migrantes chegados por via marítima não podem ser submetidos ao mesmo rito acelerado de expulsão aplicado a quem é flagrado tentando ultrapassar cercas e outras barreiras físicas de fronteira.
A medida não garante, porém, permanência automática no território espanhol: cada caso deve passar por análise individual, com as garantias legais previstas.
Ainda assim, publicações em árabe circularam no Facebook a partir de 13 de julho descrevendo a decisão como histórica e afirmando que a Suprema Corte “emitiu uma decisão considerada uma das mais importantes no tema da migração, proibindo a deportação imediata de migrantes irregulares”.
Contas de tamanho pequeno e médio replicaram o mesmo texto, algumas vinculadas a páginas voltadas à promoção de rotas migratórias.
No TikTok, um usuário resumiu de forma equivocada o teor da decisão: “Essa lei que saiu na Espanha diz que é proibido mandar de volta qualquer pessoa que tenha chegado nadando à Espanha, e é proibido à Marinha devolvê-la”.
Segundo a reportagem, esse tipo de conteúdo generalizava a medida judicial como uma proibição ampla de deportações, sem mencionar seu alcance jurídico restrito.
Especialista questiona causa única para a crise
Autoridades espanholas, incluindo o premiê Pedro Sánchez, atribuíram o aumento das travessias à ação de redes que espalharam informações incorretas sobre a decisão judicial, além de cobrarem do Marrocos maior contenção do fluxo migratório na fronteira.
O governo marroquino, por sua vez, negou ter permitido deliberadamente as travessias e também apontou a desinformação online como fator determinante.
Lorenzo Piccoli, professor-assistente de Governança da Migração no Instituto Universitário Europeu, avalia que a decisão judicial pode ter influenciado parte das tentativas de travessia, mas não explica sozinha a escala do episódio.
O mesmo durante o pico migratório de 2015 e 2016, quando cerca de um milhão de pessoas chegaram à Europa, nunca foram registradas mais de dez mil travessias em um único dia — número muito inferior às 50 mil a 60 mil pessoas relatadas em Ceuta em apenas 24 horas.
Para Piccoli, é improvável que publicações online, isoladamente, tenham gerado um deslocamento dessa magnitude em tão pouco tempo: “É muito difícil imaginar que isso tenha acontecido sem algum tipo de coordenação ou sem que as autoridades permitissem que acontecesse”, afirmou o pesquisador.
Ele acrescenta que, embora não haja indícios de estímulo direto por parte do governo marroquino, também não haveria evidência de que medidas tenham sido tomadas para impedir o avanço dos migrantes até a fronteira.
Fonte: O Antagonista









