
A BR-101 não é apenas uma rodovia federal que corta Sergipe, mas um dos principais eixos de mobilidade urbana e regional do estado. A via funciona como uma espécie de “espinha dorsal” que conecta bairros, distritos e zonas aos centros urbanos dos municípios por onde passa. Esse cenário influencia no deslocamento de pessoas que dependem de ônibus intermunicipais, mototáxis e transportes por aplicativo, entre outros meios de locomoção.
A condição da BR-101 determina não só a eficiência na circulação e na integração entre cidades, mas também o tempo de viagem, o acesso a serviços essenciais e a segurança viária de quem precisa transitar cotidianamente entre municípios ou dentro deles.
Muitos motoristas, passageiros, motociclistas, comerciantes e trabalhadores precisam da rodovia para realizar suas funções cotidianas. Esse é o caso do taxista Juscelino Barbosa que, há 13 anos, realiza viagens diárias pela BR-101, levando passageiros aos destinos. Ao longo dos anos, ele pôde ver de perto a evolução das obras de duplicação na malha viária e constatar um prejuízo no tempo de locomoção, na segurança proporcionada pela via, além de gastos superestimados com a manutenção do veículo nos trechos em que o processo de duplicação acontece.
Durante o ofício, Barbosa presenciou e se envolveu em alguns acidentes, e um deles ocorreu em um trecho da BR-101 que não estava duplicado. “Eu estava voltando para casa, um carreteiro me fechou e me jogou fora da pista durante uma ultrapassagem”, conta sobre a situação traumática.
Este é apenas um retrato das situações em que pessoas que trafegam pela BR-101 diariamente estão sujeitas. Dados da pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) reforçam a relação entre o impasse na finalização das obras e risco nas estradas. Entre outubro de 2021 e junho de 2025, ocorreram 13 acidentes envolvendo principalmente micro-ônibus. Embora os números não indiquem mortes, demonstram um padrão de risco recorrente em trechos onde a obra ainda não foi concluída.
Mesmo com o processo de obras arrastadas, há esperança de que a conclusão traga melhorias significativas. Ainda assim, a expectativa com a conclusão da duplicação a curto prazo por parte dos profissionais é baixa. O taxista explicou que, ao longo de sua trajetória, pôde perceber uma defasagem de profissionais participantes de forma ativa na duplicação da rodovia e, por esse motivo, além do histórico de atraso, acredita que o trecho em obra não será entregue dentro do prazo determinado.
“Acaba não. Tem muita coisa para fazer, tem aqueles viadutos que vão fazer ali depois de Carmópolis. Eles só fizeram a armação do viaduto, mas tem que fazer ainda a parte da pista. Também tem ali em Maruim, tem Pedra Branca. Acho que no desenvolvimento que está, não acaba!”, projetou sobre a finalização da obra no trecho norte do estado.
Em contrapartida, o superintender do Superintendente Regional do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) informou que, de acordo com o calendário de execução, o trecho Norte tem previsão de conclusão no segundo semestre de 2026. Atualmente, os editais referentes aos trechos remanescentes da BR-101 em Sergipe já foram publicados, e as propostas recebidas encontram-se em fase de análise.
“Isso inclui, principalmente, o segmento entre Estância e a divisa com a Bahia, que ainda aguarda definição contratual para a mobilização e início efetivo das obras. No trecho Norte da BR-101, as frentes de trabalho seguem ativas e avançam em diversas etapas da duplicação. As obras dos viadutos de Carmópolis e de Santo Amaro das Brotas possuem previsão de entrega para o início de 2026, mantendo ritmo acelerado de execução. No trecho de Pedra Branca, as obras do viaduto também continuam em andamento, compondo o conjunto de intervenções estruturantes da rodovia”, apontou sobre o andamento das obras que promete potenciar a mobilidade.

Ainda com relação ao trecho Sul, entre Estância e o estado da Bahia, o superintendente explicou que seguem em fase de análise das propostas para contratação e início das obras.
Embora grande parte da rodovia já esteja duplicada, os trechos que ainda restam, na região Norte e Sul, continuam sendo gargalos para quem depende da via diariamente para trabalhar, circular ou transportar mercadorias. O processo de duplicação, que já se arrasta por 29 anos, tornou-se mais que uma obra de infraestrutura, ela representa a possibilidade concreta de um novo modelo logístico para Sergipe, para o desenvolvimento da mobilidade para as cidades e para a qualidade que pode ser proporcionada às pessoas de dependem da malha no dia a dia.
Mobilidade x Economia
A duplicação da BR-101 precisa ser tratada como uma prioridade estratégica para Sergipe. Isso porque, além de melhorar a mobilidade , facilitando o deslocamento de trabalhadores, passageiros, cargas e serviços, a conclusão da obra é capaz de potencializar o desenvolvimento econômico do estado.
A saga da duplicação também está diretamente relacionada a diversos setores, como: meio ambiente, produção, economia, entre outros que fomentam o desenvolvimento do estado.
A malha viária, que corta 16 municípios, é ponto central no que se refere à competitividade logística, à atração de investimentos e ao escoamento de produtos. De acordo com a Agência de Desenvolvimento de Sergipe (Desenvolve-SE) , a ausência de duplicação integral da rodovia no trecho sergipano reduz a competitividade do estado. Essa deficiência afeta tanto o escoamento de insumos quanto o tempo de acesso a mercados consumidores de estados vizinhos, criando um cenário de incerteza para empresas que analisam investimentos industriais ou em centros de distribuição.
Vale ressaltar que mesmo com os entraves, Sergipe já tem um alto potencial mapeado ao redor da rodovia federal. A Desenvolve-SE projeta a implantação de centros de distribuição, plantas industriais (como de hidrogênio verde e fármacos), prestação de serviços de alto valor agregado (a exemplo de data centers) e projetos de mineração (potássio, titânio e zircônio).
Atualmente, a BR-101 é a principal rodovia do estado. Um estudo produzido pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) , em parceria com a Fundação Getulio Vargas (FGV) e publicado pelo Governo Federal, revela o impacto direto e positivo da obra sobre os municípios.
O estudo demonstra que, nos trechos duplicados entre 2010 e 2015, a obra gerou um efeito positivo no PIB per capita de Estância, Itaporanga D’Ajuda e Nossa Senhora do Socorro. Em Estância, por exemplo, a obra realizada registra um PIB per capita 35% maior do que teria em um cenário sem duplicação. Para Itaporanga D’Ajuda e Nossa Senhora do Socorro, o impacto foi de 27% e 12%, respectivamente. O estudo também aponta um efeito positivo no emprego médio anual para esses municípios, especialmente nos anos finais da obra, com destaque para um aumento de 13% em Estância.
Para os municípios do sul sergipano, a expectativa é de uma verdadeira transformação urbana. Isso porque é o trecho onde as obras estão paralisadas. De forma mais precisa, a obra que se estende do acesso de Aracaju até Estância já está duplicada, restando as obras da ponta sul da rodovia em Sergipe, isto é, de Estância até Cristinápolis.
De acordo com o secretário de infraestrutura do município estanciano, Zejomá Júnior , a obra na localidade, embora paralisada, já permite projetar realidades positivas. “Se a duplicação passar por fora, abrirá uma nova área de expansão na qual todo o crescimento urbano passa a ser planejado e executado por Estância, abrindo novos projetos de infraestrutura, com a necessidade de criar novas ruas de intersecção à nova BR-101”, explica.

A força da produtividade
Em termos de escoamento de produção, Sergipe se destaca pela forte atividade agrícola, com grande volume de milho, laranja, arroz, leite e uma variedade de hortifrutis oriundos dos perímetros irrigados. Atualmente, segundo a Companhia de Desenvolvimento Regional de Sergipe (Coderse), vinculada à Secretaria de Estado da Agricultura e Desenvolvimento Rural (Seagri), o estado possui seis perímetros irrigados públicos. São eles: Califórnia (Canindé de São Francisco); Jabiberi (Tobias Barreto); Jacarecica I (Itabaiana); Jacarecica II (Malhador, Itabaiana e Riachuelo); Piauí (Lagarto); e Poção da Ribeira (Areia Branca e Itabaiana), que juntos movimentaram R$ 249 milhões em 2024. Os números reforçam o peso do setor produtivo sergipano.
“A BR-101 atua como o principal corredor logístico para o escoamento da produção, conectando as áreas produtoras de Sergipe aos principais mercados consumidores e portos, interligando o estado a outras regiões do país. A fluidez do tráfego na BR-101 permite que os produtos agrícolas cheguem mais rapidamente ao seu destino, minimizando perdas e garantindo a qualidade dos produtos”, explica o secretário de Estado da Agricultura, Zeca Ramos.
Esse cenário evidencia a urgência pela finalização da duplicação da rodovia federal. Se, mesmo com trechos congestionados e gargalos estruturais, o escoamento da produção já é expressivo, a conclusão das obras tende a potencializar ainda mais o desempenho logístico do estado, na mobilidade para as cargas.
Além disso, há oportunidades de negócios em vários trechos da rodovia que serão conectados a pontos de escoamento de produção importantes, entre eles o Complexo Industrial Portuário. Com relação à infraestrutura e poder agregador dele, a Agência e a Secretaria de Estado do Desenvolvimento Urbano e Infraestrutura (Sedurbi) estão realizando um estudo para integrar o Complexo a outras malhas viárias, como a SE-240 e a SE-100 Norte, medidas que podem destacar Sergipe no mercado logístico nacional.
Outra infraestrutura que tem chamado atenção dos órgãos estaduais, ainda conforme a Desenvolve-SE, é a Zona de Processamento de Exportação (ZPE) de Sergipe, que estará localizada nos municípios de Barra dos Coqueiros, Santo Amaro das Brotas e Nossa Senhora do Socorro. A ZPE fica a menos de 20 km da BR-101, com acesso direto pela malha viária que liga o complexo portuário ao principal corredor rodoviário do Nordeste (SE-240). Dessa forma, a estrutura pode agregar uma importante função logística do polo para o transporte rápido de insumos, produtos industrializados e serviços destinados ao mercado interno.
Embora a Desenvolve-SE aponte que a falta de duplicação da BR-101 reduza a competitividade logística de Sergipe e afete a atratividade de investimentos, a Secretaria de Estado da Fazenda (SEFAZ) traz uma perspectiva fiscal positiva que não está relacionada com a duplicação da rodovia. Segundo a pasta, não há estudos que liguem o atraso da obra a prejuízos na arrecadação de Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços (ICMS), que, inclusive, apresentou um crescimento nominal superior a 10% nos últimos dois anos. Mas, mesmo com o cenário, a Sefaz reforça que a conclusão da rodovia deve, sim, favorecer a economia no futuro, o que positivamente para a receita do estado.
Segurança viária
Além dos impactos econômicos e urbanísticos, o projeto de finalização da BR-101 envolve diretamente aspectos de segurança viária, um ponto crítico para quem trafega diariamente pela rodovia. O taxista Juscelino Barbosa, entrevistado no início da reportagem, é um dos muitos motoristas que já se envolveram em acidentes em trechos não duplicados. Isso reforça como a falta de infraestrutura adequada aumenta o risco para todos aqueles que têm a BR-101 em Sergipe como meio de locomoção.
Para reduzir os índices de acidentes, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) estruturou um plano de ação voltado exclusivamente à segurança no trânsito. Ao todo, são três programas destinados a fortalecer a infraestrutura, a fiscalização e a educação para o trânsito.
O Programa BR Legal 2 atua com recapeamento, renovação da sinalização e implantação de dispositivos de proteção, incluindo sinalização horizontal e vertical, defensas metálicas e barreiras.
O Posto de Pesagem Misto (PPM), por sua vez, é uma estrutura física do DNIT voltada ao combate ao excesso de peso em veículos de carga. Ele combina tecnologia Weigh In Motion (WIM), que mede o peso dos veículos em movimento, com fiscalização presencial.
Por fim, o Programa Conexão DNIT busca promover a educação para o trânsito, oferecendo conteúdos educativos e materiais didáticos para escolas em parceria com secretarias de Educação, com foco na formação de cidadãos mais conscientes e na prevenção de acidentes.
O caminho para conclusão
A BR-101 em Sergipe, que inicia no município de Propriá, região Norte de Sergipe, e encerra na cidade de Cristinápolis, zona sul do estado, ainda é símbolo de paralisação e atraso. Todavia, tem potencial para se consolidar como uma rota de mobilidade para o futuro do estado.
Os dados apresentados pela Desenvolve-SE não deixam dúvidas: a rodovia é a espinha dorsal do desenvolvimento estadual e da mobilidade urbana para as cidades. A conclusão das obras é uma peça-chave para destravar o potencial de crescimento em setores como o turismo, a mineração e a indústria de alta tecnologia, além de contribuição para a empregabilidade, rendimento e transporte da população.
O que não pode deixar de ser mencionado são os motivos pelos quais a obra de duplicação se arrasta por tantos anos. Um dos principais aspectos é o fato de todo o processo está inserido em um contexto socioeconômico e geopolítico. Os questionamentos voltados a essa vertente são feitos pelo doutor em Análises Geográficas, José Welington Carvalho Vilar, que compara a obra de Sergipe a de outros estados.
“Qual é a força política que Sergipe não teve para concluir a sua obra, e Alagoas teve? A gente tem que questionar: por que em Sergipe, esses avanços são tão lentos?Não é prioridade?”, indaga.
A doutora em geografia Josiene Ferreira dos Santos Lima também pontua os desafios sociais e econômicos que são gerados pelo atraso nas obras da rodovia federal em Sergipe, que funciona como uma espinha dorsal para o transporte de carga, fluxo de pessoas e passagem de informações.
“Um desafio muito grande é justamente esses entraves que a gente está fazendo para não concluir, essa morosidade no processo, não há celeridade para acontecer, para duplicar. Então, vira e mexe, a gente sabe de casos, de manifestações isso gera grande problema. Veja a magnitude dos problemas que chegam para o lindeiro, quem mora às margens da rodovia, mas de quem está fazendo uso”, apresenta.
Considerando o histórico de atrasos, o interesse político e a burocracia do processo , não é possível cravar se a duplicação da BR-101 em Sergipe está no capítulo final.
Entretanto, é evidente a relevância estratégica de sua finalização. A rodovia se consolidará como o eixo central de um novo modelo logístico para o estado, impulsionando não apenas o comércio e a indústria, mas também a segurança e a qualidade, aspectos intrinco da mobilidade e transportes. O desafio, agora, é transformar as projeções em realidade.
Fonte: Fan F1









