O IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) registrou alta de 0,16% em junho, abaixo da expectativa do mercado, que projetava avanço de 0,31%. O resultado representa a leitura mensal mais baixa desde outubro do ano anterior, quando o índice avançou 0,09%. Ainda assim, no acumulado de 12 meses, a inflação segue acima da meta perseguida pelo Banco Central, atingindo 4,64%.
Em entrevista ao Agora CNN, Samuel Barros, professor de Finanças do Ibmec-RJ, analisou os principais fatores que explicam o desempenho do índice e as perspectivas para os próximos meses.
Segundo Samuel Barros, os maiores impactos negativos sobre o IPCA em junho estão diretamente relacionados ao setor de alimentação. “Você tem toda uma parte de alimentação bastante significativa, com redução bastante alta”, afirmou.
Além disso, o especialista destacou que a redução nos preços dos combustíveis também contribuiu para o resultado abaixo do esperado. “Você tem também uma parte toda de redução na parte de combustíveis em virtude do arrefecimento da guerra que tem acontecido lá no Golfo Pérsico”, explicou.
Por outro lado, o setor de energia apresentou alta mais elevada do que o previsto. Samuel Barros avaliou que, se os fatores estruturais se mantiverem — com alimentos controlados, combustíveis em queda e o cenário externo mais estável —, a tendência é de continuidade do alívio inflacionário.
“A gente deve ter uma continuidade de alívio inflacionário, ainda não sendo projetado para frente um resultado que esteja dentro da meta, mas bem melhor do que aquilo que estava sendo projetado no mês passado”, disse.
Perspectivas para o Copom e a taxa Selic
Questionado sobre a possibilidade de o Copom (Comitê de Política Monetária) realizar um novo corte de 0,25 ponto percentual na reunião de agosto, Samuel Barros afirmou que o mercado acredita nessa possibilidade.
Para ele, a confirmação dessa tendência depende, em grande parte, do resultado do IPCA-15, que será divulgado antes da reunião. “A esperança da redução de 0,25 agora para a próxima reunião é possível”, declarou.
O especialista disse ser mais conservador do que parte do mercado em relação ao fechamento do ano. “Eu acho que a gente deve fechar o ano na casa de 14, 13,75”, afirmou, referindo-se à taxa Selic.
Ele ressaltou que qualquer decisão do Copom depende de um conjunto de fatores, incluindo o comportamento do mercado externo e a questão fiscal brasileira. “Não é uma escolha simples, não vai ser uma decisão fácil do Copom, mas é uma decisão possível”, concluiu.
Conflito entre EUA e Irã como fator de risco
Samuel Barros alertou para o impacto que a retomada dos ataques mútuos entre Estados Unidos e Irã pode ter sobre a inflação brasileira. Segundo ele, a escalada do conflito influencia diretamente os preços dos combustíveis e, por consequência, toda a logística global.
“Isso vai influenciar o preço da logística no mundo, por sua vez, influencia o preço da logística no Brasil, aumentando o nosso risco inflacionário”, afirmou.
O especialista também mencionou a discussão sobre o carry trade japonês como um fator que pode contribuir para o arrefecimento da inflação, por meio da entrada de dólares no país. Para Samuel Barros, a semana seguinte à divulgação do IPCA seria decisiva para o mercado entender o que esperar do Copom na próxima reunião.
Revisão dos subsídios ao diesel
Outro ponto abordado na entrevista foi a intenção de revisar as subvenções e subsídios aos preços dos combustíveis. Samuel Barros avaliou que essa revisão já era esperada e desejada pelo mercado, especialmente diante do retorno do petróleo a patamares mais razoáveis de negociação.
“A gente vai sentir, é natural, é uma expectativa que o mercado sinta efeitos disso, mas se o resto dos fenômenos que impactam diretamente a inflação continuarem comportados, é algo bastante controlável”, disse.
O especialista estimou que o impacto total sobre a inflação seria de cerca de 0,1% a 0,2%, considerando-o administrável. “É algo desejável essa redução de subsídios, até porque o mercado precisa andar com as próprias pernas”, concluiu, acrescentando que, caso o cenário global se deteriore novamente, os subsídios poderiam voltar a ser discutidos.
Fonte: CNN









