O governo paraguaio convocou o embaixador brasileiro em Assunção, José Antonio Marcondes Carvalho, para prestar esclarecimentos sobre a declaração do presidente Lula (PT), feita na semana passada, a respeito da Guerra do Paraguai.
O anúncio foi feito pelo chanceler paraguaio, Rubén Ramírez Lezcano, que revelou ainda que Lula e o presidente do Paraguai, Santiago Peña, conversaram por telefone sobre o episódio.
“Os presidentes do Paraguai e do Brasil conversaram por telefone sobre esse delicado assunto”, disse.
“No mesmo tempo, decidimos convocar o embaixador do Brasil para uma reunião amanhã, em que juntos com o vice-presidente ,faremos a entrega de uma nota oficial de nosso governo.”
Na quarta, 29, o Congresso do Paraguai divulgou uma nota de repúdio à fala do presidente Lula. O comunicado diz que o petista distorceu e minimizou a dimensão histórica do conflito.
O Parlamento paraguaio também afirma que Lula ignorou a complexidade dos antecedentes do conflito, “o profundo sofrimento imposto ao povo paraguaio e as consequências demográficas, econômicas, institucionais e territoriais que marcaram de forma duradoura a história da República do Paraguai.”
Lula mentiu?
Na sexta, 24, o petista não cometeu erros ao comentar sobre a Guerra do Paraguai (1864 a 1870) durante um evento na Avibras.
“A gente gosta de paz. Mas a gente não pode se esquecer de que, um belo dia, o Paraguai resolveu invadir o Brasil. Invadiu Corumbá. Ao mesmo tempo, invadiu o Uruguai. Ao mesmo tempo, invadiu a Argentina. E aquela guerra que parecia que era nada durou cinco anos. E aquela guerra deve ter consumido o equivalente a cinco orçamentos do país daquela época. Porque, quando tem uma confusão, ninguém fica perguntando se tem dinheiro ou não tem dinheiro. A hora que começa a confusão, ou você arruma se ou você está ferrado“, disse o presidente.
O presidente da Câmara dos Deputados do Paraguai, Raúl Latorre, divulgou um comunicado nas redes sociais criticando o presidente brasileiro: “Lula, você está falando de forma leviana sobre a maior tragédia da nossa história, o maior genocídio do nosso continente.”
“A Guerra da Tríplice Aliança (que começou com a intervenção militar do Brasil no Uruguai) deixou o Paraguai devastado e marcou para sempre nosso povo“, afirmou Latorre.
Mas, ao contrário do que disse Latorre, o que deixou o Paraguai devastado não foi a entrada de tropas brasileiras no Uruguai, e sim a decisão do Paraguai de invadir o Brasil e a Argentina.
Nenhum acontecimento no Uruguai obrigava o ditador paraguaio Solano López a invadir Brasil e Argentina.
“Há um contexto histórico, com epicentro no Uruguai, este sim invadido por tropas imperiais. Solano López imiscuiu-se nesse contexto, declarou-se parte interessada e invadiu o Brasil em dezembro de 1864. Não havia qualquer ameaça militar brasileira em relação ao Paraguai“, diz o historiador Francisco Doratioto, professor da Universidade de Brasília e autor do livro Maldita Guerra.
Mesmo assim, de surpresa, tropas de Solano López saquearam as cidades de Mato Grosso e Uruguaiana, assim como Corrientes, na Argentina.
Soldados paraguaios cometeram violência contra civis brasileiros e argentinos, quando conquistaram cidades.
Como disse Lula, Brasil e Argentina não estavam preparados para se defender. O recrutamento foi lento e os dois países invadidos tiveram de se armar às pressas para fazer frente à invasão.
A guerra custou o equivalente a doze orçamentos de 1864 (Lula falou em cinco). Para conseguir responder à invasão, o Brasil teve de imprimir mais papel-moeda, elevar impostos, vender títulos de dívida para a elite cafeeira e contrair empréstimos com bancos britânicos.
Lula só errou ao dizer que o Paraguai invadiu o Uruguai, o que não aconteceu.
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Fonte: O Antagonista









