A magia do processo criativo está na multiplicidade de caminhos pelos quais faz girar a engrenagem da imaginação. Seja na retirada do excesso ou na curiosidade aguçada que permite enxergar o que pede para existir, Ezio Déda é uma dessas figuras que buscam ir além do simples olhar, mergulhando no vir a ser para encontrar figuras e formas para se expressar.
Arquiteto, proprietário do Ágora Projetos e Consultorias, escritor e superintendente do Instituto Banese, mantido pelo Banco do Estado de Sergipe (Banese), assina alguns dos projetos arquitetônicos mais notáveis do estado, como o Museu e o Largo da Gente Sergipana, já consolidados no imaginário dos sergipanos.
Ele afirma ser guiado pela apreensão de momentos espirituais, pelo anseio por captar apelos que vivem “ao lado”.
“Que eu não perca esse viço, que eu não perca essa curiosidade e essa vontade de descobrir as coisas que estão pedindo para ser. E eu pedi ao universo a oportunidade de poder traduzi-las e trazê-las para o plano da materialidade da existência”
Régua e compasso
Filho de José Febrônio de Araújo e Creusa Armandina Déda de Araújo, Ezio Christian Déda de Araújo nasceu na cidade de Simão Dias, em 30 de outubro de 1975. A infância, lembra, foi marcada por múltiplas possibilidades de criação, mesmo vindo de uma família de forte tradição nos campos político e jurídico.
Ele mesmo tentou seguir a carreira jurídica ao ingressar no curso de Direito da Universidade Federal de Sergipe, mas foi a Arquitetura foi o que se mostrou perecível como verdadeira vocação. A escolha não se deu de imediato, mas foi amadurecida ao longo do tempo.
Para ele, sua cidade natal, inspiração de Sergipe e berço de vultos das letras e das artes, certamente ofereceu as ferramentas que moldariam essa trajetória.
“Simão Dias deu para mim régua e compasso para tudo”
Em Simão Dias, Ezio estudou no tradicional Grupo Escolar Fausto Cardoso, até o 2º ano do Ensino Fundamental, e no Colégio Cenecista Carvalho Neto, do 3º ao 7º ano, onde e quando começaram a despontar os primeiros traços da criatividade, ainda nos trabalhos escolares.
“Naquele momento, Simão Dias tinha uma riqueza cultural muito grande, atividades festivas. Eu lembro do 7 de setembro que tinha cenários e carros alegóricos, então eu tive uma infância muito rica de história da arte como um todo, de história da humanidade”, lembra.
Quando a Arquitetura parecia um objetivo distante, “uma especiaria de luxo”, a curiosidade fez a bússola da vocação apontar mais uma vez para à arte. Certa feita, quando criança, acompanhou a restauração de uma das casas mais antigas da cidade.
O então prefeito de Simão Dias à época, Manoel Ferreira de Matos, o Caçulo, adquiriu uma “residência neoclássica”, cujas intervenções foram acompanhadas atentamente por Ezio.
“Hoje, eu vejo que muito dessa curiosidade pela profissão veio naquele momento. Eu acompanhei cada detalhe, cada entalhe que foi descoberto, que foi recuperado, a chegada dos lustres de cristal. Então ali já havia, eu acho, um arquiteto sendo formado, mesmo sem se perceber”, afirma.
Quando chegou ao 8º ano, Ezio se mudou para Lagarto, onde foi aluno do Colégio Abelardo Romero Dantas. Somente em 1991 se mudou para Aracaju, onde concluiu o Ensino Médio no Colégio Arquidiocesano Sagrado Coração de Jesus, antes de ingressar no curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Tiradentes (Unit).
Ainda hoje, lembra do berço de grandes intelectuais e personalidades sergipanas como a base de tudo o que viria a ser.
“Tem coisas que eu crio, que eu imagino, e quando eu vou me dar conta, a essência está lá [em Simão Dias]”
Dar nome às coisas
Ezio Déda cursou Arquitetura e Urbanismo na primeira turma da Universidade Tiradentes (Unit). É à instituição que atribui o conhecimento “valoroso” que lhe trouxe liberdade para se expressar com o mundo: o domínio sobre o desenho técnico.
“A partir daquele momento que aprendi a representar graficamente a minha ideia, pronto, ali ninguém me segura mais”, destaca.
Dessa expertise, conta, adquiriu o poder de se fazer ser entendido para executar de uma gaveta a um museu, e, assim, ser ele mesmo uma força motriz na engrenagem do processo criativo.
“Eu acho que a arquitetura é uma profissão que oferece várias possibilidades de atuação, para além da edificação apenas ou do urbanismo. Você pode trabalhar com restauração, você pode trabalhar com história da arte e com uma infinidade de coisas, mas o desenho é a linguagem de expressão comum”, diz ele.
Essa dimensão comunicadora leva Ezio a enxergar o arquiteto como uma figura com a prerrogativa de ser um narrador. É nesse ponto que literatura e arquitetura se encontram em sua vida. A escrita o ajuda a identificar nuances, dar contorno e construir identidade em suas obras.
“Eu não consigo pensar em um projeto, desenhar um projeto se ele não tiver nome. Eu preciso de nome, eu preciso escrever sobre ele. Eu preciso de trilha sonora para ele. […] Quando eu dou nome, eu já trago ele para o plano da existência, ainda que seja uma ideia, e preciso da escrita para justificar”, argumenta.
A liberdade para transitar entre as manifestações é o que apresenta como condicionante para criar algo que possa contribuir com o outro. Por isso, busca referenciar a arquitetura com outras artes.
“Se tiver que levar para o outro uma obra pública, uma obra que tenha uma função pública, eu não faço para mim, então eu preciso pesquisar, eu preciso fundamentar e nesse processo tem a escrita. Eu gosto de misturar muito”, afirma Ezio.
Essa relação com a palavra o levou também à literatura. Autor de dois livros, Ezio estreou em 2001 com ‘Árvore de Folhas Caducas’, obra que une poesia e fotografia e contou com apresentação de Maria Bethânia. Em 2010, publicou ‘A Casa das Ausências’, coletânea em prosa poética interpretada em vídeo por nomes como Dona Canô, Zélia Duncan, Maitê Proença, Antônio Abujamra e até o próprio Marcelo Déda. Obras que, segundo ele, revelam essa busca por atravessar fronteiras e dar forma às ideias em diferentes suportes.
Esse compromisso com o diálogo constante também se reflete na sua trajetória acadêmica. Depois de se formar, Ezio retornou à Unit, primeiro como professor e depois como coordenador do curso de Arquitetura e Design de Interiores. Desde então, soma mais de duas décadas de docência, conciliando o trabalho no escritório com o contato direto com os alunos.
“Eu acho que é uma contrapartida que eu tenho para a instituição que me formou, mas também é um papel social. De certa forma, dentro daquele espaço eu consigo difundir minhas ideias”, completa.
Entre projetos estratégicos para a instituição, como o Tiradentes Innovation Center, o Memorial de Sergipe Prof. Jouberto Uchôa e o Tiradentes Institute na Universidade de Massachusetts em Boston, além da experiência em sala de aula, Ezio reafirma a importância de multiplicar aquilo que aprendeu. Cultura, lembra, pode ser também ferramenta de crescimento profissional e de sobrevivência.
Na docência, afirma transmitir seu método criativo aos estudantes, insistindo que a arquitetura precisa dialogar com a cultura e com a história da arte.
“A questão cultural é um ativo importante, não só de autoafirmação, mas é um ativo importante de crescimento profissional e negocial também, a cultura tem valor. A cultura tem valor, inclusive, de sobrevivência”

Em 2007, na iminência da comemoração dos 50 anos do Banese, o então governador Marcelo Déda buscava um espaço capaz de traduzir os traços da sergipanidade. A ideia foi restaurar um monumento arquitetônico — o prédio do antigo Atheneuzinho — e transformá-lo em um equipamento cultural.
A missão coube ao escritório de arquitetura de Ezio Déda. Para definir os caminhos do projeto, foi promovido o Fórum da Sergipanidade, que reuniu alunos, professores, agentes culturais e a sociedade civil. Dessa escuta coletiva nasceu o mosaico identitário que viria a compor o futuro Museu da Gente Sergipana, inaugurado em 2011.
“Como todo museu, ele não tinha pretensão de esgotar os temas. E hoje eu percebo que, quase 15 anos depois, muitas coisas foram incorporadas no acervo: Mamulengo de Cheiroso, Zé Peixe, Clemilda, Maria Feliciana, Paulinha Abelha, a professora Aglaé, os povos pretos, povos originários, Arthur Bispo do Rosário…”, declara.
Para Ezio, o museu consegue representar com força os traços da sergipanidade porque apresenta o cotidiano de forma criativa, sensorial e interativa.
“O que tá na vitrine não é o objetivo raro, caro e inacessível, é o que você tem em casa, o que você come em casa, então, essas coisas são importantes. Ele dessacraliza a relação do visitante com o espaço museal”, diz ele.
Ele acredita que o museu se tornou um divisor de águas em Sergipe, com um caráter vivo que faz as pessoas retornarem. Do receio de que o museu fosse apenas uma novidade, acolhida inicialmente pela dimensão do prédio e a tecnologia nele incorporada, viu o equipamento se reinventar, se tornar um “espelho” para quem vive em Sergipe apresentar sua cultura.
“As pessoas retornam diversas vezes. Quando um turista chega aqui, alguém de fora ou algum familiar, é como se esse local fosse um grande espelho pra pessoa se mostrar: ‘eu sou isso, minha gente é isso’”
O nascimento do Largo da Gente Sergipana
Durante a obra do museu, Ezio acompanhava diariamente o processo de restauração. Ele conta que o então governador Marcelo Déda também visitava o canteiro com frequência, e em uma dessas ocasiões, do alto da mediateca, diante das janelas que dão para o Rio Sergipe, percebeu algo.
“Olhei e disse: ‘Tem alguma coisa pedindo para existir ali do outro lado da avenida, dentro do rio’. Ele respondeu: ‘O quê?’ Eu disse: ‘Não sei, mas tem alguma coisa ali que pede para nascer’”, lembra.
A ideia ficou adormecida até o final da construção do museu, mas não foi abandonada. Após a inauguração, percebeu, então, um avanço sobre o rio, em forma de meia-lua.
“Aquilo dali me chamava para avançar sobre o rio, só que eu não entendia o que era”, comenta.
Com o tempo, começou a imaginar que o espaço deveria dialogar simbolicamente com o Museu da Gente Sergipana. Pensou em esculturas, primeiro de personalidades, depois descartadas em favor de arquétipos: não heróis individuais, mas expressões coletivas.
“Uma coisa mais que fale de comunidade, que fale de grupo e não que personalize nesse conceito do herói, do salvador da pátria”
A chave veio da própria identidade do museu, voltada à cultura popular. Se lá dentro se revelavam os modos de falar, comer, brincar, cantar, escrever e cozinhar, do outro lado era preciso dar forma às manifestações que nasceram do encontro entre povos originários, africanos escravizados e colonizadores europeus.
Para aprofundar a curadoria, convidou a professora Aglaé Fontes, que assumiu a seleção dos grupos representados. Assim, o Largo foi concebido como uma extensão externa do museu, pensado para se tornar ícone urbano e celebração viva da cultura popular sergipana. Ezio enfatiza que foi o então governador Jackson Barreto “que teve a coragem de realizar uma obra audaciosa e tão marcante para Sergipe”.
Ele ressalta também o papel educacional do espaço, que ultrapassa o aspecto turístico e midiático. Para ele, ao expor manifestações como o Lambe Sujo ou o boi do reisado, o espaço oferece ao público um aprendizado sobre a identidade local.
“Muita gente olhava para ali e dizia: ‘por que o saci daqui tem duas pernas?’. Não, não é o Saci, é o Lambe Sujo, né? E o boi bumbá não é o boi bumbá, é o boi do reisado”

Dando continuidade ao seu percurso de valorização da cultura local, Ezio reflete sobre os desafios e as oportunidades da arquitetura cultural em Sergipe. Ele afirma enxergar possibilidades escancaradas no estado, com potencial para projetos que integrem cultura, turismo e desenvolvimento.
Por isso, rompe com a ideia de que o êxito profissional implica no deslocamento para os grandes centros.
“Tem uma distorção, às vezes, de que quando alguém se dá bem na sua própria profissão, deveria ir para outro lugar: ‘Ah, você é internacional, você é isso, você é aquilo’. Não. Por que não posso ser daqui e fazer bem aqui? Nada me impede de ir para outro lugar e fazer lá também, mas eu gosto muito e vejo possibilidades escancaradas aqui em Sergipe”, argumenta.
Sob a perspectiva da cultura como vetor de desenvolvimento, ele vê ativos exponenciais, ainda subutilizados, mas que já estão no rol de realizações do Governo do Estado através do Programa Viva Sergipe, um grande e histórico investimento na cultura e turismo do Estado. Um exemplo que cita está na memória da Segunda Guerra Mundial, onde os torpedeamentos ocorridos em Sergipe tiveram repercussão internacional.
“Sergipe tem uma história que tangencia a Segunda Guerra Mundial, o Brasil entra na Segunda Guerra por um episódio histórico que acontece aqui e isso não é tratado da forma que deve. Isso tem um potencial turístico absurdo, como instrumento de pesquisa, de novos debates sobre o tema. Como tem Santa Dulce, como tem Arthur Bispo do Rosário, como tem o Cangaço…”, afirma.
A sensibilidade, nesse contexto, não é um enfeite, mas uma ferramenta. Narrador de ofício, ele sustenta que o motor da criação é a capacidade de perceber o que ainda não foi dito ou o que já está dizendo algo, mas ainda em silêncio.
Para sustentar o argumento, relembra uma visita a São Paulo, onde visitou uma ONG no bairro da Liberdade. Coordenada por uma freira, a organização elevava objetos de descarte à condição de arte. Foi lá que viu uma tampa de fogão ser transformada em cinzeiro.
“E eu olhei e disse: ‘Que coisa linda alguém enxergar isso’. A freira sorriu e disse: ‘Meu filho, as coisas pedem para ser, a gente que não enxerga’”
Desde então, conta que essa frase se tornou um farol em sua vida criativa. “O que é que isso pede para ser?” é a pergunta que o acompanha como um mantra silencioso. Em sua sala na superintendência do Instituto Banese, uma frase em um quadro ecoa esse mesmo estado de escuta e entrega: “Não mexe comigo que eu não ando só”.
“Acho que eu tenho um compromisso em fazer as coisas e fazer as minhas entregas com absoluta qualidade para as minhas limitações, mas eu não ando só porque eu acredito em Deus, acredito nessas forças positivas que estão ao meu lado e que não me deixam sucumbir”

Larissa Gaudêncio é jornalista formada pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), colaboradora da Rede Fan de Comunicação desde março de 2021.
Sobre a coluna
De Perfil é uma coluna do Portal Fan F1 dedicada a perfis jornalísticos. Cada perfil narra a história de vida de uma pessoa, pública ou não, de maneira humanizada e subjetiva. Ao contrário de uma biografia, o perfil é mais conciso e foca em aspectos específicos da trajetória do personagem.
Fonte: Fan F1









